Havia em mim uma fonte de esperança. Não sei bem desde quando, ou de onde surgiu. Quem a plantou? Também não sei, nem mesmo desconfio... Alguns acham que nasce conosco a esperança. Algo da fé, ou do espírito, quiçá? Mas sei: eu possuía minha parte naquilo. Porém, talvez por um descuido meu: não tenho mais esperanças. Elas se foram ou as perdi? Quanto mais pensamos, acho que fazemos as ideias sobre as coisas empurrarem as esperanças para fora de nós... Como uma planta que regamos e ela cresce à medida que cada pensamento novo a fomenta. As esperanças, tendo pouco que lhes sirva de adubo, acabam sendo semente fraca que não vinga. Será? Nada sei... Nada sei... Só penso, ou melhor: "quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa".
Era noite em um dia qualquer, quando sai nas ruas fazendo uma caminhada de reflexão. "Como?", alguém pergunta. "Sim", respondo! "Costumo sair andando pelas ruas sem motivos quaisquer além de caminhar para pensar, "adubar" pensamentos, esperanças, reflexões...!". Andar, mover as pernas, levar pensamento a pensamento adiante enquanto caminho são coisas que me fazem bem - até hoje, pelo menos! Pensando, caminhando, obviamente: não deixamos de enxergar. Daí, caminhando, vi pessoas nas ruas. Tantas! De todos os jeitos, fazendo tudo quanto é tipo de coisa. Notei sempre nas caminhadas, noite adentro, pessoas ajeitando suas peças de pano, papelão ou quiçá outra coisa qualquer que lhes servem de cama. Sim! Via pessoas que ajeitavam-se com esforço humilhado em um canto qualquer de rua qualquer... Outras, ainda sem sono ou sem pretensão de dormir: as vi também. A noite é perigosa, sabem disso! Algumas outras reviravam lixos ensacados nas calçadas sujas, poluídas... Era uma cena triste atrás da outra dependendo de onde seus olhos e coração se fixavam... Era a primeira calçada que me atentei na noite!
Atravessei a calçada. Segui! Lá ia eu na caminhada tentando ainda "adubar" meus pensamento! Distraído, tropecei no pé de um cidadão. Pedi-lhe: "desculpa?", mas ele não sentiu-se interessado em perdoar... Apenas virou a cara e seguiu seu assunto em discussão numa mesa de bar. Nem toda hora é hora para ser gentil ou agradável, cordial. Deve ser isso o que ele usou de álibi para seu silêncio desnecessário. Dali em diante, fiquei mais atento, todavia! Desviei das mesas dos bares, dos pés das pessoas... Das pessoas... Todas as calçadas repletas de gente! Tantas delas repletas de copos, pratos, comidas, sorrisos, assuntos, discussões... Onde cabiam habitualmente quatro pessoas, havia cinco, seis ao redor das mesas... Era a segunda calçada que me peguei pensando na noite... Entendi: eram as calçadas que pensei diferentes, sim. Porém, pareciam na verdade partes de dois mundos distintos. Não consegui "adubar"pensamento nenhum de alegria dali em diante. Segui, entretanto, caminhando, pensando, esperando trabalhar a terra de minha mente.
Pensei comigo: copos cheios, esvaziavam-se! Essa lógica aplica-se a tudo quanto foi pleno na vida um dia! Pois bem... Andando, pensando, pensei: copos metade cheios ou copos metade vazios? A velha discussão! O que muda é a forma de ver? Ou a forma de interpretar? Eu percebia ali nítido o impasse quanto aos copos em minha cabeça. Extrapolei minha reflexão para a noite, para a vida comum! Vi pessoas metade cheias, metade vazias à primeira impressão. "Como?". Numa análise simplista, sem benefício algum, simplesmente numa análise minha: vi pessoas vazias de estômago, cheias de histórias dentro de suas vidas, entretanto... Vi pessoas cheias de ideias na cabeça, mas vazias de fome ou necessidades. Vi pessoas cheias do mundo, vazias de amor... Ou imaginei, quem sabe? Com qual dos grupos de definições preconcebidas por mim mesmo eu me identificaria? Não sei! Há o vazio de tantas coisas. Ah, o vazio de tantas coisas...
Fato é que constatei: vivo vazio de algumas coisas, mas cheio de outras... Todos somos assim! Copos por preencher ou por esvaziarem-se. Cabe entretanto refletir: o que de vazio ou de cheio em mim agrega valor ao mundo, ou a mim mesmo, ou ao interesse e preocupação do mundo real que tenho por meu entorno? Difícil dizer. Sabia naquela altura da noite apenas que, de toda a caminhada: eu estava cansado! Andei bastante! Refleti também. Ambas as coisas cansam... Perdi suor e energia. Deixei partes de mim por onde passei? Nem que fosse cabelos que caíram, ou células que se despregaram de minha pele ao vento, sei lá... Não sei! Na verdade, não sei nem quanto deixo de mim na vida, imagine numa simples noite?
De caminhar, acumulei mais sujeira nas solas de meus sapatos! Também acumulei mais ideias em minha cabeça. Pude trazer para mim mais memórias de mais rostos de mais pessoas; todas tão distintas, eu vi... De fato, a cada vez que caminho, a cada vez que penso sobre mim, ou sobre eu no mundo, ou sobre o mundo e eu nele: menos encho-me de esperanças ou certezas. Tenho olhado tudo de forma muito acabrunhada, entendo! Onde deixei minha esperança que um dia tinha a dar frutos na minha cabeça, na minha alma, no meu coração? Ora, devo ter tropeçado um dia e ela caiu de mim... Desleixado, sei que sou! Ou será que algum pensamento ou alguma conclusão que tirei de coisas sobre o mundo a retirou de mim? Há pensamentos, ideias e sensações que nos roubam coisas. Sei disso... E, sabendo: sinto saudades de minha esperança.
Fato é que constatei: vivo vazio de algumas coisas, mas cheio de outras... Todos somos assim! Copos por preencher ou por esvaziarem-se. Cabe entretanto refletir: o que de vazio ou de cheio em mim agrega valor ao mundo, ou a mim mesmo, ou ao interesse e preocupação do mundo real que tenho por meu entorno? Difícil dizer. Sabia naquela altura da noite apenas que, de toda a caminhada: eu estava cansado! Andei bastante! Refleti também. Ambas as coisas cansam... Perdi suor e energia. Deixei partes de mim por onde passei? Nem que fosse cabelos que caíram, ou células que se despregaram de minha pele ao vento, sei lá... Não sei! Na verdade, não sei nem quanto deixo de mim na vida, imagine numa simples noite?
De caminhar, acumulei mais sujeira nas solas de meus sapatos! Também acumulei mais ideias em minha cabeça. Pude trazer para mim mais memórias de mais rostos de mais pessoas; todas tão distintas, eu vi... De fato, a cada vez que caminho, a cada vez que penso sobre mim, ou sobre eu no mundo, ou sobre o mundo e eu nele: menos encho-me de esperanças ou certezas. Tenho olhado tudo de forma muito acabrunhada, entendo! Onde deixei minha esperança que um dia tinha a dar frutos na minha cabeça, na minha alma, no meu coração? Ora, devo ter tropeçado um dia e ela caiu de mim... Desleixado, sei que sou! Ou será que algum pensamento ou alguma conclusão que tirei de coisas sobre o mundo a retirou de mim? Há pensamentos, ideias e sensações que nos roubam coisas. Sei disso... E, sabendo: sinto saudades de minha esperança.
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| das tirinhas de C.Schulz |
Como enxergo a mim mesmo diante do mundo? Se eu me visse e dialogasse comigo mesmo: o que pensaria de mim? Será que sou um "copo" meramente "metade cheio" de vida? Ou, quiçá, "metade vazio" de esperança? Sim, metade cheio de vida... Não sei quanto tempo viverei ou qual expectativa nisso haverei de criar, mas chegar aos meus trinta anos já é um bom caminho andado, não? Quem sabe seja mesmo metade? Ah, o mundo não é mais tão promissor assim para se viver tanto ou querer isso. Será? É o mundo ou sou eu? Ora, o que estou eu a dizer? Pessimismo, sei! Mas, decerto: viver é mesmo muito perigoso! Quem sou eu para entender qualquer coisa ou traçar metas?
Ainda, se eu me visse, se conversasse comigo mesmo: será que me veria como um "copo metade vazio" de esperanças então? Pode ser que todo esse colóquio seja apenas parte do fato de eu ser algo vazio de esperança mesmo. Mas quanto vazio? Seria já metade? Mais que isso? Quanto há de esperança no "copo" que sou? Se for o caso: quem "bebeu" ou a tomou de mim? Eu permiti ou estava desatento para tal dano que me causei - ou causaram em mim? Sim, sei que deixei parte da esperança espalhada em expectativas que não converteram-se em coisa alguma! Não sei medir esperanças e nem a vida - decerto: não sei mensurar nada! Deixo as questões de mensurar aos matemáticos, como coisa de gente exata. Sou prolixo, reticente... Não caibo em tamanhos nem sei definir o respectivo das coisas. Apenas entendo de ver "copos metade cheios" ou "metade vazios" em minhas caminhadas. Pessoas "metade" com fome e outras "metade" abastadas em muitas coisas. E eu nisso tudo? Sou apenas um copo a encher-se... Enchendo-me de mim mesmo? Quiçá... Quiçá...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
