quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O óbito e o médico

Era uma tarde qualquer num hospital comum. Como sempre, filas cheias de pacientes inquietos por tantas mazelas, quer fossem orgânicas ou psicológicas. Todos ali tinham sua devida pressa! Cada um deles, entretanto, exigia uma parcela específica de atenção da equipe daquele hospital. Porém, ao meio da tarde, mal esperavam por aquilo, todos comoveram-se com algo. Uma criança, tão pequena e comum aos olhos de todos, mas aos olhos dos pais que a traziam representava o ''tudo'' que valia em seu mundo. A criança em questão, já tão sofrida devido seu tratamento contra o infeliz câncer que a tirava daqueles pais, estava ali, diante de todos, já sem respirar. Sim, segundo os pais ela não respirava já havia alguns minutos quando, ao perceberem  o insucesso de seus cuidados iniciais, procuraram a carona mais ágil e ali puderam enfim chegar. Chegariam em tempo? Não saberiam responder, mas correram o quanto puderam atrás da vida que perdia-se à frente deles...

O médico, de pronto, acompanhado de sua fiel assistente de enfermagem, moveu-se para acudir a cena abandonando (algo insatisfeitos) os pais de outra criança que, naquele mesmo instante,  ainda estava sendo atendida devido seu quadro de amigdalite que, aparentemente, era a maior preocupação dos seus pais. O médico os abandonou devido toda a gravidade e urgência requeridas pela situação ao lado. Mas para os pais que ali ficaram ''abandonados'' no pequeno consultório, não fora tão simples perceber e entender aquilo. Aquele abandono sem o fechamento da consulta? Sim, era um atraso no encerramento daquele atendimento! Alguém deveria ser responsabilizado, pensou o pai, mas calou-se ao ver-se já distante do médico!

Médico e enfermeiras, todos os da equipe, na tentativa de socorrer de alguma forma ajudando naquele cenário desolador, moveram-se cada um definindo-se por suas competências, assumindo respectivas funções na tentativa do socorro. Ao primeiro contato, a criança não respirava, era fato! Sim, lá estava estampado na parede o protocolo a ser seguido para os casos como o que viam ali, colocando mais aquele paciente, aquela criança, como um receptor das manobras devidas, na conduta do protocolo referido adequado ao caso... Todos o sabiam de cor! Procederam a todos os cuidados, assim sendo! Sudoréticos, trêmulos, lá estavam todos! Por mais que já tivessem passado por situação semelhante diversas vezes, lá estavam eles ansiosos e temerosos por mais outra vez... Os ruídos humanos advindos dos afazeres do protocolo estabelecido ali não calavam o silêncio emocional da sala de urgências.

A criança não reagia! Todo um estresse firmava-se num cenário inconsolável já aparentemente definido por Deus. Os pais? Desesperados! Outros tantos em meio à cena brotavam pelos corredores tentando os confortar aos seus modos. O médico, apenas de soslaio por estar focado na cena inicial, olhava-os desesperado por não os poder socorrer naquele momento, nem os confortar... A cena era triste! Ele já sabia seu desfecho, era fato! O que esperar? 

A criança não voltou aos braços daqueles pais! Como seguir? Como dizê-lo a eles, tal fato, tamanha dor? Para o sistema, ali havia apenas mais uma ficha, um número sequencial em meio a tantos, um prontuário qualquer que necessitou de um protocolo específico com sucesso total, parcial ou inexistente. Para aqueles pais, todavia, ali estava entregue aos braços de Deus o que lhes era tudo, mas lhes havia sido retirado. Para aquela enfermeira, já tão emocionada e em prantos naquele instante, ali morria uma linda criança com todo um futuro pela frente! Para aquele médico, por sua vez, ali estava "o tudo" daqueles pais, um querido paciente que por algum motivo de Deus fora-lhe retirado sem o sucesso das manobras por ele realizadas e também ali estava algo de um filho seu que perdeu-se! 

Em meio às lágrimas dos pais, ele os abraçou afastando-se da maca, da criança! Explicou dos procedimentos que ali ocorreram, mesmo sabendo que para eles (e até mesmo para ele!) tudo era parte de algo inexplicável. Presenciar a morte? Apesar dos esforços por evitar a cena derradeira e temida que fez-se por concreta ao final de tudo, era humanamente muito triste, um tanto quanto revoltante! E daquilo, ao final de tudo, viu-se: foi-se embora outra alma pura do mundo! Sim, era ali o retrato de uma cena que pintava a morte e todo seu contexto de dor. Sim, o contexto inóspito, fato incontestável, revoltante e imutável do morrer, fato esse ali vislumbrado e definido na realidade que havia por sobre uma maca fria.

Após aquela despedida, entregue devidamente o nefasto atestado do óbito daquela criança às mãos dos pais, apesar dos olhos ainda estáticos deles, o médico enfim voltou-se ao que havia parado lembrando-se dos pais da outra criança com amigdalite que o aguardavam insatisfeitos. Para eles era demora eterna tudo aquilo enquanto aguardavam naquele consultório que ladeava a sala de emergência. Apesar disso, antes de adentrar naquele consultório novamente, sentiu ser necessário passar por algum outro local, mais afastado. O banheiro, sim, o banheiro! Precisou desviar-se por instantes dos olhos atentos daqueles pais sentados ao lado, no consultório, que lhes espreitavam os passos, ansiosos por uma posição para seu caso e, enfim, poderem ir para casa. 

Esquecendo-se um pouco de tudo, de suas responsabilidades já em trânsito novamente apesar do que acabara de ocorrer, o médico refez-se em meio ao silêncio daquele banheiro! Entrou, respirou... Buscou na alma a calma necessária almejando a paz que queria ter - e precisava ter!. De sopetão, despretensiosamente junto ao silêncio que cabia aquele recinto, a lágrima pingou no jaleco que até então permanecia incólume, embora recheado de dores. A dor ali contida passou a ser seu pior parasita, consumindo todo resquício de paz que poderia haver, deixando eternizada na memória e no sentimento aquela despedida inexplicável aos olhos da experiência humana comum e à perplexidade daquele profissional que desde aquele instante nunca mais seria o mesmo, embora já tenha sofrido assim tantas outras vezes.

Feito isso, secada a lágrima, alguns instantes passaram-se. Retomou silencioso à sala do consultório. Reviu o caso, elaborou em definitivo seu diagnóstico e prescreveu. O carimbo fora apertado quase que sem força para corar em tinta o papel do receituário. Deu as devidas orientações. Trocou mais algumas palavras com os pais e esclareceu suas dúvidas. Saíram eles dali com atestados e receita em mãos, acompanhados de seu filho já pedindo para chegar em casa logo. Os pais, agora mais felizes, desde aquele instante apenas teriam de aguardar o sucesso prometido pelas medicações prescritas segundo informes daquele médico que, aparentemente, eles nem gostaram tanto... O médico? Como de habitual, secadas as lágrimas do corpo, seguiu obviamente com lágrimas ainda na alma. Porém, quem se importava? Lá estava ele novamente com caneta em punho e estetoscópio posicionado para todos os demais atendimentos daquele e dos seus próximos dias.  

Chegando em casa, soltando à porta todo o peso do trabalho com um suspiro invisível aos olhos comuns, pensou consigo enquanto rumava à cozinha para beber um copo de água: vá em paz criança que partiu! Pensou novamente as últimas horas, seguiu para se arrumar para dormir, afinal, o dia seguinte já estava chegando com suas devidas obrigações. Naquela mesma noite, tantos outros desejaram suas respectivas bençãos ao espírito da criança que naquela tarde havia deixado o mundo... 

Ao raiar do dia seguinte, lá estavam todos novamente na lida. As filas novamente cheias assim como as cabeças e as memórias com seus devidos sentimentos acumulados. Mazelas e dores ainda vívidas? Sim, mas a quem isso importava? As roupas brancas (tal qual papéis em branco) guardavam em si uma imensidão de sentimentos e pensamentos à espera do momento oportuno (nunca alcançado) de revelarem-se. Porém, aos olhos despretensiosos de todos, estavam meramente ''brancas'', vazias. Afinal, esperam-se do médico condutas, acertos, obrigações, não sentimentos! Correto? Era o que ele sabia - e temia!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Eis que mais um dia acaba... Outro começa!

''É de manhã. É de madrugada!''. Não é música de Caetano Veloso, mas sim uma realidade agora enquanto escrevo. É dia 24 de dezembro. É dezembro! É o ano de 2015 ainda. E 2016 quase que já nasce. É hoje, sim, mais um dia em que um ano está novamente quase acabando!

Outro ano de vida... Outro ano a menos da vida! Coisas de ''copo meio cheio ou meio vazio'', entende? Ano de aprendizados. Ano de derrotas. Ano de ganhos materiais e imateriais, etéreos. Ano de coisas que passaram e deixaram marcas. Ano de coisas que apenas passaram e nem lembradas mais são. Ano de coisas que passaram e são parte de nós hoje. 

Ano após ano, eis que o milagre de estar vivo vai se perpetuando; até quando? Resta a dúvida, sempre. Dúvida essa que, de alguma forma, Jesus, em sua passagem na Terra, quis deixar como motivação. Sim, motivação! Não saber se hoje é meu último dia deveria ser motivação suficiente para que eu vivesse esse meu dia como podendo ser o último. Ah, se fosse assim...

Se fosse assim, agindo no hoje como se me fosse a última chance, a última esperança: eu não deixaria para amanhã desavenças que tenho hoje. As resolveria de pronto! Eu não deixaria para depois os abraços que eu queria ter dado ontem e ainda não dei. Eu abraçaria hoje, sem medos ou pudores! Eu não deixaria para depois as ações de bem que sonhei fazer e não fiz ainda. Eu faria todo o bem que eu pudesse fazer já agora, sem pensar em medos ou consequências. Apenas faria o bem e pronto! 

Se fosse assim, agindo daquela maneira, eu não deixaria para depois sobre comunicar ao mundo que sou grato por tudo de bom e ruim que me deu. Eu acordaria e estaria grato, pronto! Dormiria agradecendo também. Afinal, quem sabe fosse meu último adormecer? 

Se fosse assim, agindo daquela maneira, eu não ficaria indo à missas, cultos, templos ou encontros religiosos quaisquer apenas para anotar presença enquanto práticas periódicas de fé socialmente aceita. Não! Eu iria somente exercer atividades assim caso achasse nisso algo de promissor, algo que estivesse a me tornar alguma pessoa e espírito melhores. Afinal, Deus existe para servir e estar presente na fé que é ação efetiva, não em fé que se dá aos broches que ostentamos no peito ou em fé que se exerce apenas nas presenças que marcamos como evento social que Deus tem se tornado no nosso mundo. Eu agiria diferente nisso também!

Se fosse assim, agindo daquele jeito, eu trabalharia com todo o amor que eu tivesse. Não aguardaria do outro as ações que eu mesmo posso realizar pelo bem comum! Faria muito mais o que é preciso fazer do que faço. Pararia de ficar fazendo só ''o que dá''. Agindo assim, eu estaria sendo um melhor profissional hoje. Afinal, amanhã minhas funções podem não mais estar sendo realizadas... Sabe-se lá se eu estarei vivo?

Agindo no hoje como se me fosse a última chance, eu não deixaria para amanhã olhar nos olhos de quem amo e dizer: ''eu te amo!''. Amor é coisa grande e rara. Poucos merecem receber o título de amor. Ah, sim, já houve muitos seres que amamos e hoje temos raiva de ter dado amor. Sim? Não! Ora, mil vezes não! Não se zangue! Amor é coisa que se dá e pronto. Não se espera o retorno! Se amamos e esperamos amor, isso não é amar. Amor é doado e pronto. Receber em troca fica a cargo do amor do outro e nada tem a ver com nossa capacidade de amar. Então, agindo assim, eu amaria mais e de forma mais clara, ampla, irrestrita. Afinal, talvez eu não mais tenha amanhã os amores que tenho hoje - pai, mãe, mulher amada, amigos e familiares queridos, animais amados de estimação, as flores do jardim... Eu os amaria a todos hoje!

Então, tentarei agir assim. Hoje será meu último dia? Esse será meu último ano? Não sei! Nem sei se essas podem ser minhas últimas palavras, mas, se forem, que elas tenham sido sinceras, dotadas do melhor que eu tenha a dar... De forma sincera, plena e pura, dar tudo quanto eu tenha para compartilhar. E que eu exija a cada dia mais coisas melhores de mim para serem doadas, compartilhadas. No mais, não tendo nada a compartilhar e nada de bom em mim ser doado: para que um ano novo, ou um dia novo, ou uma vida que siga adiante?

No mais, mesmo não sendo música de Caetano, usemos delas e das tantas outras coisas lindas que temos da nossa cultura nacional, por exemplo, para compartilhar coisas belas. Assim, estaremos ajudando mais (e de forma mais produtiva) nosso hoje e nosso amanhã - caso ele haja! Vou terminando de Caetano então! ''É de manhã (...) vou pela estrada, e cada estrela é uma flor. Mas a flor amada é mais que a madrugada... E foi por ela que o galo cocorocô!".

Resta então dar bom dia aos novos dias que nos nascem e bom dia ao novo ano que quase chega! Bom dia flor, amada, estrela madrugada... É de manhã! É de madrugada! Viva!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 5 de dezembro de 2015

Amigos

Ah, sim. Claro! Foi há muito tempo atrás. Lembro!
Eram muitos amigos que sentiam-se unidos, pois.
Foram-se anos passados de risadas,tantas,
Que causavam cansaço nas mandíbulas.
Ah, amizade pura que há. Quem encontra?
Não sei. Não encontrei, mas tive notícias.
Muitos por aí dizem-se cercados de amigos. Vê?
Vejo por ora um mundo inteiro reivindicando essa graça.
"Tenho amigos!", "são todos meus!". Ora, que lindo seria
Um mundo repleto de amizades puras.
Ah, como eram bons os tempos de infância.
Bastava trocar meia dúzia de figurinhas do álbum
E nos chamavam já de amigo no recreio!
Ah, como era bom o tempo da infância derradeira...
Tempo que passamos sem nada ter a oferecer.
Sem eira, nem beira. Só havia a presença e o tempo ofertados.
Ah, os amigos de outrora. Quem dera os tivesse agora.
Em tempos difíceis da vida, somos sozinhos, sabe?
Se não sabes, das duas uma: ou não és adulto ainda
Ou não passaste por problemas sérios.
Quem estiver do teu lado na tragédia, colega,
Chame esse alguém de amigo!
Abrace-o. Chame-o para sua casa!
Faça-lhe um café e diga: obrigado!
Para os demais, deixe que existam onde estejam,
De nada valem aqueles que não te somam na dor!
Mais ainda: valem nada aqueles que te somam dores outras
Enquanto sofres, sozinho, suas próprias dores - já tantas!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Horas felizes


Ah, a quitanda de minha vida de onde eu havia comprado meus frutos de sonhos...
Como eram doces os tempos de colher e comprar sonhos, esperanças.
Hoje, tão cético: quanto de sonhar e de esperar posso ter?
Quem fui eu que de nada me sirvo?
Fechei as portas que havia e tranquei-me em meu pessimismo...
Ora, pois então que eu as abra de pronto, correto?
Diriam tantos sem saber das coisas da vida...
Sim, é duro adoecer da alma, do pensamento...
Quão doente posso estar que de mim mesmo não me curo?
Qual doença enfim jaz em mim a colocar fim ao eu que fui, esperançoso?
Ah, vida que há: traga para mim a sombra de um sonho 
E deixe-me, deitado na relva da esperança, passar horas felizes.
É o que peço - pelo menos por ora. 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A noite em muito se me parece


Quero sumir, posso? Ora, é estranho mesmo! Nunca imaginei que deixaria para outros os meus sonhos, mas é a realidade que tenho por fado hoje. Desisti de mim, a bem dizer. Cansei de buscar sonhos... Não sou um bom sonhador, quem sabe... Ou melhor: não sou um bom "realizador" de sonhos. Nem mesmo o sonho de ficar bem eu alcanço, quiçá haveria outra alternativa para os demais sonhos cotidianos...? Sabedor disso tudo, por vezes, parado olhando a ausência de movimento nas ruas, em plena noite da cidade, fico perdido como os semáforos que ascendem e apagam para carro nenhum. Sim, sem sentido ou objetivo! Refleti sobre isso certa noite em que caminhei pensando...

Não é fácil caminhar doente. Sim, tenho andado doente há anos. Doente das emoções, sabe? Não houve remédios que me curassem desde o início de tudo! Por vezes, há um lapso de momento bom em mim. Deixo ele existir, mas sei, desde o início dele: vai passar! Morre no máximo um ou dois dias após aquele "eu feliz" que por instantes havia. 

A noite que há - escura, silenciosa e sem testemunhas - é algo semelhante a mim! Sou a cada dia mais obscuro! Enegrecidos se mostram meus pensamentos e enevoado meu futuro. O silêncio tornou-se padrão em mim. Não tenho mais atenção aos momentos de coletividade e de socializar... Sou a cada dia mais ensimesmado! E, em sendo assim: não há testemunhas sobre o que sinto, sofro ou penso! Tudo é um enorme silêncio em diálogo mental em que "eu" e "mim" entramos em debate e tiramos conclusões pessimistas. Logo, a noite em muito se me parece! A feliz conclusão que chego é: sendo eu parecido com a noite, uma certeza há: assim como ela acaba, eu também hei de acabar - cedo ou tarde!

Talvez chegue então o dia em que passe essa noite. A natureza não é assim, cíclica? Sim! Eu sou parte da natureza, um animal qualquer. Faço falta? Acho que não! Se eu morresse hoje, que mal faria ao mundo? Quem notaria? No máximo meia dúzia de pessoas que passaram por mim sem ver doença alguma ou notar algo de errado... 

Entristecido e pessimista, concluo: das pessoas que passam e me veem diuturnamente: quem delas me enxerga? Será tão difícil assim estender a mão ao que diante de si aparenta sofrer? Será que mudança de hábitos, poucos sorrisos, cotidiano embotado não dizem algo? Devo estar me fazendo de coitado, decerto... Creio, entretanto, que: se dizem algo essas mudanças de comportamento, pouco sonoro é aquilo que se faz dito, ou seu clamor. Pois quem percebe? Ninguém! Ninguém... Viver é desfrutar da solidão acompanhado de várias pessoas.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 1 de novembro de 2015

Sonhada sina


Não sou mais adepto de fazer poesia...
Quem consegue, hoje, assim, ser?
Antes, achando motivos: eu fazia!
Mas hoje confesso: porque fazer?

Poesia é coisa da alma, do coração...
Há sentimentos bons nesse mundo?
De tudo o que vejo, o que dizer então?
O desânimo torna-se, em mim, profundo.

Espero o dia em que os sorrisos sejam
Fartos e francos como não têm sido!
Espero, quiçá, que os pessimistas vejam:
Apesar de tudo, foi belo ter vivido!

Desespero e despreparo, nós, humanos,
Vemos exemplos em cada esquina!
Que consigamos superar tais enganos
E façamos do amor nossa sonhada sina.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Tragam-me minha esperança

Havia em mim uma fonte de esperança. Não sei bem desde quando, ou de onde surgiu. Quem a plantou? Também não sei, nem mesmo desconfio... Alguns acham que nasce conosco a esperança. Algo da fé, ou do espírito, quiçá? Mas sei: eu possuía minha parte naquilo. Porém, talvez por um descuido meu: não tenho mais esperanças. Elas se foram ou as perdi? Quanto mais pensamos, acho que fazemos as ideias sobre as coisas empurrarem as esperanças para fora de nós... Como uma planta que regamos e ela cresce à medida que cada pensamento novo a fomenta. As esperanças, tendo pouco que lhes sirva de adubo, acabam sendo semente fraca que não vinga. Será? Nada sei... Nada sei... Só penso, ou melhor: "quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa".

Era noite em um dia qualquer, quando sai nas ruas fazendo uma caminhada de reflexão. "Como?", alguém pergunta. "Sim", respondo! "Costumo sair andando pelas ruas sem motivos quaisquer além de caminhar para pensar, "adubar" pensamentos, esperanças, reflexões...!". Andar, mover as pernas, levar pensamento a pensamento adiante enquanto caminho são coisas que me fazem bem - até hoje, pelo menos!

Pensando, caminhando, obviamente: não deixamos de enxergar. Daí, caminhando, vi pessoas nas ruas. Tantas! De todos os jeitos, fazendo tudo quanto é tipo de coisa. Notei sempre nas caminhadas, noite adentro, pessoas ajeitando suas peças de pano, papelão ou quiçá outra coisa qualquer que lhes servem de cama. Sim! Via pessoas que ajeitavam-se com esforço humilhado em um canto qualquer de rua qualquer... Outras, ainda sem sono ou sem pretensão de dormir: as vi também. A noite é perigosa, sabem disso! Algumas outras reviravam lixos ensacados nas calçadas sujas, poluídas... Era uma cena triste atrás da outra dependendo de onde seus olhos e coração se fixavam... Era a primeira calçada que me atentei na noite!


Atravessei a calçada. Segui! Lá ia eu na caminhada tentando ainda "adubar" meus pensamento! Distraído, tropecei no pé de um cidadão. Pedi-lhe: "desculpa?", mas ele não sentiu-se interessado em perdoar... Apenas virou a cara e seguiu seu assunto em discussão numa mesa de bar. Nem toda hora é hora para ser gentil ou agradável, cordial. Deve ser isso o que ele usou de álibi  para seu silêncio desnecessário. Dali em diante, fiquei mais atento, todavia! Desviei das mesas dos bares, dos pés das pessoas... Das pessoas... Todas as calçadas repletas de gente! Tantas delas repletas de copos, pratos, comidas, sorrisos, assuntos, discussões... Onde cabiam habitualmente quatro pessoas, havia cinco, seis ao redor das mesas... Era a segunda calçada que me peguei pensando na noite... Entendi: eram as calçadas que pensei diferentes, sim. Porém, pareciam na verdade partes de dois mundos distintos. Não consegui "adubar"pensamento nenhum de alegria dali em diante. Segui, entretanto, caminhando, pensando, esperando trabalhar a terra de minha mente.

Pensei comigo: copos cheios, esvaziavam-se! Essa lógica aplica-se a tudo quanto foi pleno na vida um dia! Pois bem... Andando, pensando, pensei: copos metade cheios ou copos metade vazios? A velha discussão! O que muda é a forma de ver? Ou a forma de interpretar? Eu percebia ali nítido o impasse quanto aos copos em minha cabeça. Extrapolei minha reflexão para a noite, para a vida comum! Vi pessoas metade cheias, metade vazias à primeira impressão. "Como?". Numa análise simplista, sem benefício algum, simplesmente numa análise minha: vi pessoas vazias de estômago, cheias de histórias dentro de suas vidas, entretanto... Vi pessoas cheias de ideias na cabeça, mas vazias de fome ou necessidades. Vi pessoas cheias do mundo, vazias de amor... Ou imaginei, quem sabe? Com qual dos grupos de definições preconcebidas por mim mesmo eu me identificaria? Não sei! Há o vazio de tantas coisas. Ah, o vazio de tantas coisas...

Fato é que constatei: vivo vazio de algumas coisas, mas cheio de outras... Todos somos assim! Copos por preencher ou por esvaziarem-se. Cabe entretanto refletir: o que de vazio ou de cheio em mim agrega valor ao mundo, ou a mim mesmo, ou ao interesse e preocupação do mundo real que tenho por meu entorno? Difícil dizer. Sabia naquela altura da noite apenas que, de toda a caminhada: eu estava cansado! Andei bastante! Refleti também. Ambas as coisas cansam... Perdi suor e energia. Deixei partes de mim por onde passei? Nem que fosse cabelos que caíram, ou células que se despregaram de minha pele ao vento, sei lá... Não sei! Na verdade, não sei nem quanto deixo de mim na vida, imagine numa simples noite?

De caminhar, acumulei mais sujeira nas solas de meus sapatos! Também acumulei mais ideias em minha cabeça. Pude trazer para mim mais memórias de mais rostos de mais pessoas; todas tão distintas, eu vi... De fato, a cada vez que caminho, a cada vez que penso sobre mim, ou sobre eu no mundo, ou sobre o mundo e eu nele: menos encho-me de esperanças ou certezas. Tenho olhado tudo de forma muito acabrunhada, entendo! Onde deixei minha esperança que um dia tinha a dar frutos na minha cabeça, na minha alma, no meu coração? Ora, devo ter tropeçado um dia e ela caiu de mim... Desleixado, sei que sou! Ou será que algum pensamento ou alguma conclusão que tirei de coisas sobre o mundo a retirou de mim? Há pensamentos, ideias e sensações que nos roubam coisas. Sei disso... E, sabendo: sinto saudades de minha esperança.

das tirinhas de C.Schulz
Como enxergo a mim mesmo diante do mundo? Se eu me visse e dialogasse comigo mesmo: o que pensaria de mim? Será que sou um "copo" meramente "metade cheio" de vida? Ou, quiçá, "metade vazio" de esperança? Sim, metade cheio de vida... Não sei quanto tempo viverei ou qual expectativa nisso haverei de criar, mas chegar aos meus trinta anos já é um bom caminho andado, não? Quem sabe seja mesmo metade? Ah, o mundo não é mais tão promissor assim para se viver tanto ou querer isso. Será? É o mundo ou sou eu? Ora, o que estou eu a dizer? Pessimismo, sei! Mas, decerto: viver é mesmo muito perigoso! Quem sou eu para entender qualquer coisa ou traçar metas?

Ainda, se eu me visse, se conversasse comigo mesmo: será que me veria como um "copo metade vazio" de esperanças então? Pode ser que todo esse colóquio seja apenas parte do fato de eu ser algo vazio de esperança mesmo. Mas quanto vazio? Seria já metade? Mais que isso? Quanto há de esperança no "copo" que sou? Se for o caso: quem "bebeu" ou a tomou de mim? Eu permiti ou estava desatento para tal dano que me causei - ou causaram em mim? Sim, sei que deixei parte da esperança espalhada em expectativas que não converteram-se em coisa alguma! Não sei medir esperanças e nem a vida - decerto: não sei mensurar nada! Deixo as questões de mensurar aos matemáticos, como coisa de gente exata. Sou prolixo, reticente... Não caibo em tamanhos nem sei definir o respectivo das coisas. Apenas entendo de ver "copos metade cheios" ou "metade vazios" em minhas caminhadas. Pessoas "metade" com fome e outras "metade" abastadas em muitas coisas. E eu nisso tudo? Sou apenas um copo a encher-se... Enchendo-me de mim mesmo? Quiçá... Quiçá... 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Foco, força e fé

O tempo surge estranho, ás vezes... Claro, por tempo, entendemos muitas coisas. Estações do ano, o clima do dia, as passadas do relógio, os dias do calendário, as fases da vida... Há tempos demais para discutirmos. Mas, aquele que traz mais identificação conosco em termos de nossas preocupações é o que diz respeito à passagem das fases da vida.

Hoje, menos jovens que ontem. Amanhã, idem. Não nos formamos para envelhecer.  A maior parte da vida trazemos dentro de nós a certeza de que somos fortes, fortes, jovens, quiçá... Por vezes, claro, é humano isso: nos enganamos. Mas é fato que boa parte da vida passamos fingindo que desconhecemos o fato do tempo nunca parar.

O relógio é um incansável. A velhice nos chama, sorrateira. O idade pesa, pouco a pouco, dia a dia... Eis que a imagem da força e personalidade decidida, auto-confiante vai sendo retirada de nós. Vamos sendo segundo plano de nós mesmos. Antes de tudo, dos sonhos que temos, das vontades que trazemos, chega o dia em que passamos a nos preocupar mais com a subsistência, a saúde para o dia de amanhã, pois já hoje está em falta... É, sinais de que o tempo nos laçou.

Mas, será mesmo que deveria ser diferente? Todos os elementos da natureza (exceto as pedras, talvez) mudam ao longo da vida, em sua essência, em sua imagem, em sua aparência e força. Não? Acho que sim. Até as rochas, a bem dizer, vão mudando, mas são mais teimosas. Mudam aos poucos, esfarelando de forma bem serena... Quem sabe elas estejam certas nisso?

Fato é que o tempo passa para todos - seres vivos e inominados. Somos parte de uma essência que desconhecemos a origem, desconhecemos a existência e, logo: não sabemos em que vai dar. Sabemos apenas que ontem as dores nas costas não existiam, ou as dos joelhos, ou as da memória... Ah, as dores da memória. Doem muito enquanto o processo de envelhecer nos acontece. 

Mantenhamos, entretanto, a mente livre, os sonhos sempre vigentes, as vontades da alma mais fortes que as dores do corpo, as tristezas da alma... Sejamos fortes, não necessariamente jovens. O tempo, afinal, não controlamos, mas podemos controlar a nós mesmos e os nossos passos diante das adversidades. Se o tempo é algoz, que saibamos vencê-lo. Basta foco, força, fé... 
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Voa! Planta! Colhe!

Vai a criança que morre a criança na comunidade, por ora: no Caju; 
Vão, e morrem, a adolescente e mais dezenas em chacinas (Osasco é só uma que ficou conhecida e ganhou destaque. Mas: e as outras?!); 
Vai o policial honesto trabalhar com medo e, quando prende algum infrator, depois de se expor tentando tirá-lo das ruas: vem advogado soltar o bandido, respondendo em liberdade, pois a lei permite (compra e cala!); 
Vai o playboy comprar droga no morro e financiar o tráfico e "pagar" nas mobilizações "pinta" de honesto e nacionalista; 
Vai o helicóptero com mais de 400 Kg de cocaína que voa sob desdém da mídia (e conivência do povo e políticos); 
Vai o "aviãozinho", morrer como bandido, correndo na rua, em meio ao tiroteio, pois não teve como enxergar alternativas educacionais para seu "vôo"...

Criam-se crimes para vender segurança. Vendem segurança a preço de convencimento do caos. Convencem do caos comprando espaço na mídia. Comprada a mídia, vende-se a alienação para o sensacionalismo tendencioso. Alienados: morremos (ou permitimos que morram!) cidadãos comuns, inocentes! Terra sem lei? Terreno farto em covas! 

Nesse processo: Plantam a semente do ódio... Plantam a semente da impunidade... Plantam a semente da alienação... Plantam a semente da condenação prévia daqueles que tem o azar de ter um vizinho bandido. É isso? Mas isso é só coisa de periferia? Será? Não são os fatos que comovem, mas o alvo do fato? Quem colherá os frutos? Quem (im)planta discursos à bala, cava a cova de gente inocente - mais que qualquer outra coisa.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Carta ao filho(a) que não tenho

Olá, criança amada. 

Estás bem por aí? Perdoe meu jeito de falar, mas teu pai não é dos mais sabidos. Tentei comunicar contigo por esses dias, mas não consigo ouvir sinais teus ainda. Queria alertá-lo sobre como estão as coisas por aqui, ir te atualizando, sabe? É bem verdade, e deves ter recebido informação de teus superiores, que ainda estão morrendo muitos de forma imensamente trágica aqui. Pois é! Nos últimos dias, muitas pessoas têm morrido sabe como? Atravessando mares e terras tentando fugir de guerras e alcançar um futuro digno de um filho de Deus. Sabia disso? Guerras criadas por gente que hoje diz querer a paz, sabe disso? Ironia, cinismo? Não sei bem. Acho que não sabes também, mas vais entender isso um dia. Daí onde se encontra, sei que não há espíritos ruins como os que temos aqui, mas não se assuste: papai está bem! Papai teve a sorte de nascer dentro do grupo de pessoas privilegiadas daqui. Deu sorte no nascer, saiba.

Criança amada, teu pai nunca passou fome, sabe? Nem frio. Nem sede. Isso é ótimo, não? Era para ser assim a todos, mas estamos longe disso. Deve ser horrenda a sensação de não ter um banho quente para tomar, ou um copo de água para saciar a vontade beber, ou um lanche para despistar a fome. Sede, fome, frio... São dores descabidas, sabe? Mas nem comovem tanto quanto deveriam - digo isso da maior parte, pois nem todos são tão cruéis nos tempos de teu pai. Não me entenda mal! 

Sonho e peço que nunca venhas a sofrer disso! Peço a Deus todos os dias para que teu tempo seja de dias melhores para todos: pobre, rico, negro, índio, branco! Tenho tentado fazer minha parte ajudando no que vejo-me capaz, afinal: eu tenho obrigação de tentar ajudar! Não pense que teu pai faz muito. Não, não faço. O que faço é obrigação, pois, como eu disse: tive sorte de nascer com privilégios que me amparam o caminhar. Entendes bem? Repito, criança: seu papai foi privilegiado em poder ter condições de existir nesse planeta com conforto no cotidiano. Preciso ser, então, o melhor que eu possa no todo que eu venha a me prestar a fazer. Tornar os meus privilégios uma força motriz que alavanque uma luta por melhorias para todos, sabe? Sei que me entende e saberá exercer um bom exemplo quando vieres ter comigo alguns anos em sua vida na matéria.

Criança amada, avise às demais crianças que se encontrem perto de nascer e que estejam aí, perto de ti: o mundo não está nada bom! Avise à todas elas aquilo que já reforcei contigo anteriormente: tenham espírito forte. Sim! É muito necessário tê-lo nesse mundo! A imensidão de informações que nos incentivam no erro são muito mais trabalhadas e divulgadas que aquelas que nos fomentam acertar e agir pelo bem, sabe? Essa realidade vem de todos os lados, de onde menos se espera... Sim, as tragédias e comoções seletivas geram alarde. Chamamos aqui de ibope. Conheces daí? Quando uma tragédia existe, não se preocupam em criar soluções, mas ampliá-la e levar todos à situação de medo sem medidas. Aviso logo: aterrorizado e sem esperança, o povo é igual gado diante do capataz de chicote em punho: vai para onde mandam; nem pensam; nem agem além do que se lhes é imposto! Entende? Nunca tema a ponto de parar de seguir no pensar e no agir, filho! 

Teu pai tem visto, criança, que têm todos os meios de comunicação atuais trabalhado (como sempre fizeram, é bem verdade) muito bem em nos retirar as esperanças, em nos incentivar a não querer fazer melhor as coisas, em não lutar pelos direitos dos desprivilegiados. Ou seja: nos mandam manter tudo como está, em resumo. Sabe? Ademais, embora finjam que não: as redes de mídia do tempo de teu pai até chegam a incentivar pessoas a ter raiva e intolerância à existência de outras gentes que pensem diferente, ou ajam diferente, ou sejam diferentes, simplesmente. Incentivam nisso um ódio às pessoas desprovidas de privilégios, ou melhor "privilégios" (entra aspas, pois saiba: na verdade isso era para ser direito de todos) como comer, trabalhar, ter direito de ir e vir sem serem olhados de soslaio e com desdém, ou de amar quem bem queiram sem sofrer qualquer discriminação. Sabe? Saiba! Não ter privilégios e querer ter é quase um ultraje para muitos, sabe? Há gente aqui que não é de "se misturar", perceberás desde daí de cima isso... Nem devem ser tantas as pessoas do tempo de teu pai que chegam aí, creio eu!

Enfim: tenho tentado falar com você, criança, mas acho que não sei rezar bem, atingindo os ouvidos de espíritos de luz como você ou os demais que se preparam para encarnar nesse planeta para nos salvar rumo à evolução esperada, sonhada... Mas, deixo aqui mais uma tentativa de contato.

No mais, reze pelo tempo de teu pai e te prepares para a luta: será árdua à sua geração de espíritos corrigir tantos erros que a geração de teu pai tem deixado. Perdão! Peço a ti e passe isso a todos os demais, por favor.

Abraços bem apertados daquele que te ama amor tão grande que é mais de mil vezes qualquer número ao tamanho que eu possa dar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ao compadre amigo meu

Que tempos são esses em que as pessoas mais buscam conforto do que respostas? Paro. Indago outra vez! Que tempos são esses em que as pessoas buscam mais respostas confortáveis do que a verdade pura? Sim, confesso, tenho observado pasmo o tempo em que vivo. Todo vivente hoje sabe de si e do mundo um barranco alto de coisas empilhadas como verdades incontestáveis, sabe? Mas ninguém quer saber de subir em cima de si e de seu monte de tralhas para olhar as tais verdades, entende? Se sobe pra testar firmeza, cai de lá e machuca por inteiro. Vira farrapo no chão. Cai das verdades esfarrapadas que achou firmes, sólidas.... 

Verdade pura é caminho, é plana, vai indo pela terra; ou plana leve e livre se vai pelo ar. Não sobe. Não é de hierarquias de alturas. Sabe? Não há barranco ou monte que se faça de verdades. Há apenas um atoleiro de mentiras ou azedumes de barrancos dispersos em verdades compradas a preço barato ou dadas.

Sabe? Reforço: sei de mim quase que nada. Observo tudo quanto há e vejo que, naquilo tudo, transparece um tanto de mim que diverge do eu que me faço, fingindo ser pra todos (e pra eu mesmo, sabe?)... Entende? Digo bonito agora: sei que é mais fácil reforçar que o mundo é ruim, mas difícil mesmo, de dar dor nos calos dos pés e dos olhos: é ver que o mundo é todos nós! E isso agora? Ora, digo reforçando: nós estamos nele. Nós somos o mundo. Sabe?

Entendo que a vida vai sendo pontuada aos poucos por verdades. Verdades semeiam-se, sabe? Dadas aos poucos, de espaço em espaço... A terra, é certo, precisa estar fofa pra saber dar cabo de crescer a verdade. Quem as joga pelas terras? Não sei. Quem crê em Deus há de lhe dar medidas do cultivo, do plantio... Mas sei que as verdades vão se dando como pegadas na terra, pausadas, repetidas, aos poucos, uma a uma. Mostrando um caminho plano e amplo, sabe? Entende? Caminho que não cabe no horizonte. Desconfio que estou certo, mas não deixo pegada no chão quando digo algo... 

Das verdades da vida, há alguém que norteia, é certo. Sei lá que dá cabo disso no mundo, mas sei que: de tão ruim o homem é, tão dura é a vida, era pra nós, um a um, termos morrido já faz tempo, vê? Cá estamos todos vendo tudo. Mas ainda criando montes e barrancos de verdades que escondem o mundo vil e cão que somos, digo: que temos. 

De tempos em tempos, surge um ou outro que grita alto na rua e mostra a voz do sábio. Mas a gente desconfia, sabe? O povo carece de ter verdades confortáveis como pensar que não adianta tentar mudar as coisas, ou ainda dizer que o mundo é ruim assim desde sempre e nada há de fazer pra isso, sabe? Quem não é dos que ouve gente assim falar, falar e falar?

Quem nada tem a acrescentar é o que muito fala e toma poder nas palavras, sabe? Digo e repito: tem poder demais aquele que fala também demais e tenta acrescentar verdade demais ao mundo. Eita, quase que desfiz a frase de antes, mas o amigo entende, decerto. O amigo haverá de entender: o que tem poder e o que é podre andam, às tantas, de-lado-a-lado. Sabe? 

É verdade aquilo que disse o meu amigo tolo: "vi na televisão um bocado de verdades que nem sabia...". Mas, pobre coitado, nem sabe de televisão, nem sabe de verdade. Nem sabe, é verdade, de nada... Afinal, quem muito sabe de nós, pouco quer trazer de verdade pra nós, não cabe isso na tua cabeça? Se homem poderoso quisesse passar verdade pra nós que age de povo, nada de tantas desavença e disparate havia já hoje nos rincões desse mundo sem fim, tão sofrido. 

Ah, amigo meu, esperto seja, hoje e sempre, senão te tiram do ciso e vão você e sua história dormir no sereno, sabe? Digo mais: se acredita demais em quem te paga os contos de salário, há de chegar o dia em que nem salário e nem quem te paga você terá mais por perto. Viste? Veja.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Carta à criança que ainda não nasceu

Criança querida, filho meu (ou filha minha?),

Sei que ainda nem nasceste, mas deve estar, como dizem, "por aí". Sinto que estou tentando ser melhor a cada dia! Tenho tentado plantar um mundo onde possas sentir-se melhor, mais segura, mais livre, juro! Quero dar a ti todo o mundo, entende? Mas, entendo eu que tal mundo é plantado a partir do somatório de cada pequena ação. Desde a menor das pessoas à maior delas, desde a pequena cidadela à maior das megalópoles: cada um planta o que pode e tem pra dar. Todos fazem sua parte - decerto: para o bem e/ou para o mal. Sei que entenderás nos seus dias isso! Independente de qualquer coisa, temos de seguir tentando fazer o que seja possível, não é? Tenho tentado. Juro! Sonho com o dia em que haveremos de mudar o mundo conforme diria Eduardo Galeano: a cada pequena coisa que fazemos.

Queria ter certeza, entretanto, de estar agindo de forma correta, mas perdão, criança, se quando nasceres o mundo ainda te seja cruel. Há um destempero sem tamanho, desmedido mesmo, nas atitudes e palavras de muita gente ainda na geração de teu pai. Eu mesmo erro tanto... Percebo de consolo que pelo menos tenho tentado enxergar melhor e proceder certo a partir do que consigo ver, sabe? Todos os dias dou minha dose de erro ao mundo, todavia. É uma pena... Mas juro, criança: tenho tentado melhorar e ajudar. Parto inicialmente tentando melhorar a mim mesmo. Muita gente de bem deixou essa dica de tempos em tempos pelo mundo. Na medida do possível: tento me esforçar por colaborar, dar minha ajuda no todo. Saberás no tempo que será teu agir da melhor forma, melhor que seu pai e os que vivem com ele - estou certo desde hoje quanto a isso. 

Querida criança, quando decidires vir até nós nesse planeta ainda tão violento, com tantas pessoas morrendo sob o silêncio dos que têm "voz", sob as punhaladas e tiros dos que têm poder: venha forte de espírito! Ninguém enfraquece um corpo e uma mente quando se carrega um espírito forte! Saiba disso e tenha por conselho mais importante de teu pai! Não espere, ademais, muito das pessoas, ou do mundo, ou dos representantes da fé e do poder! Venha sem muitas expectativas, pois pode ser que não te seja fácil teu tempo tal como ainda não é o de seu pai. Mas nunca, nunca deixe que te desanimem da força e honra de tentar!

Espero muito que em teus dias as pessoas se amem mais. Sim, independente da cor da pele, da riqueza adquirida em matéria, do gênero pelo qual se denominam e amam, da origem de onde vieram ou de onde nasceram seus ancestrais... Sim, criança: matam ainda hoje pessoas por questões étnicas, de dinheiro, de gênero e de opinião avessa, sabe...? Mais que isso: poucos ficam comovidos para além do que seletivamente colocam na televisão. Torço para que tua geração seja mais humana e muito mais esperta, criança.

Ademais, de fato: o mundo de teu pai é mesmo cruel e inabitável para você! Você não mereceria isso. Criança nenhuma merece o que temos hoje, mas algumas dão-se ao azar de nascer já hoje... Não sei se os tempos de teu pai são piores que antes, mas espero mesmo que teu momento, tua jornada, seja muito, muito melhor.

Caberá a mim e aos contemporâneos de teu pai fazer algo. Reze por mim, pois juro estar tentando! Precisamos todos nós aqui de muita ação e muito aprendizado, urgentemente. E, por favor: não chore, criança! Rezo para que o Deus que há faça mais por ti do que tem feito em nós (ou por nós)!

Abraços e beijos do teu futuro pai.

Que teu futuro seja imensamente lindo assim como, desde o hoje, é meu amor por ti!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Expiração final

Nascemos! Logo que nos damos conta do mundo, surge uma inspiração profunda. É o ato de respirar! Em seguida, nos vem o choro. Aprendemos desde cedo, desde o ápice do instante derradeiro do momento mais relevante da vida que é o parto, que há o pranto! Respirar toma formas de um impulso ao choro, um fôlego tomado para chorar. Nascemos agindo assim. 

Parto... Partir... Sim! Ser extraído de dentro do corpo quente e amoroso da mãe. Ser trazido ao mundo sem qualquer direito de opinião! Sim, há mães que nada têm de amorosas, mas aberrações há em todas as espécies de seres, não? O conforto da vida intra-uterina nos é retirado. O útero materno cansa-se de nós? Julga ele que estamos aptos ao mundo? Aparentemente sim, afinal irrita-se e contrai todas as suas fibras para, então: nos expulsar. Isso é nascer!

Nascidos, choramos após termos aprendido a inspirar. Expirar é fácil. Chorar também logo que aprendemos a acumular o fôlego necessário! Desgostosos, precisamos de algo quente que tente reproduzir o calor humano materno. Os gritos de dor da mãe nos comovem, acredito. Talvez seja nosso choro inicial uma forma de gritar, pedindo: "Pare! Larguem minha mãe!". Sabe-se lá o que pensamos enquanto recém nascidos que fomos...

Eis então que vamos crescendo. Desde cedo aprendemos as dores da vida. À fome? Choramos! Às dores? Choramos! Adoecidos? Choramos! É um reflexo humano chorar, quiçá... Porém, vamos aos poucos sendo traídos. As pessoas que amamos passam a nos reprimir o choro. "Choram demais os bebês", dizem alguns... E os pais, cansados, querendo dormir, calam a boca do diminuto humano no berço com um bico. Nesse momento, aprendemos que somos enganados até pelas pessoas que mais amamos! Daquele bico insosso, apenas servem-se para nos calar. Sim, nos calamos! 

Aprendemos então, desde tenra idade, que chorar é errado e incomoda os demais! Aprendemos que os fortes não choram! Ótima estratégia de convencer as pessoas ao redor de que não chorem nunca, não? Criamos no imaginário delas que: quando não se chora, se é um forte. Decerto, quem quer ser tido por fraco? Não é mesmo? Então: paramos de chorar! Calamos o pranto.

A vida vai passando. As decepções se acumulam. As dúvidas e medos agigantam-se e todos nós nos deparamos com uma vontade de chorar enorme um dia. Surge o dilema: chorar? Quem serei eu após permitir o pranto? Alguém estará vendo? O que pensarão de mim... Muitos tentam, mas alguns não conseguem conter as lágrimas e calar o pranto nessa hora. Corremos para o quarto escuro. Lá estaremos livres...

Deitados, buscamos o travesseiro. Viramo-nos de lado e fletimos ao máximo nosso corpo - quase a ponto de abraçar as próprias pernas. A escuridão, o corpo encolhido, o calor da cama, o silêncio... Já vivemos isso! Tentamos ali retratar o útero materno novamente. Por vezes, o relógio à cabeceira faz sons periódicos como que retratando as batidas do coração mãe. Eis o cenário perfeito sonhado desde a primeira inspiração no mundo! E tomamos a certeza então de que viver é sofrível. Porém, enfrentamos o dilema: chorar é proibido? Assim disseram e desde então nos percebemos perdidos. Fomos sempre obrigados a calar a nós mesmos diante de nossos sentimentos à frente desse mundo torpe... 

Assim, passando dia após dia calando pranto após pranto, vamos nos vendo mais e mais velhos. Os cabelos não mais se encontram na cabeça. Voltamos a ser frágeis. Mal sabemos andar... Temos de aprender tantas coisas - e reaprender outras. Precisamos da ajuda das pessoas! Não somos mais fortes - mesmo nunca tendo chorado! Entendemos que aquela história de chorar e ser fraco era mentira e calamos o choro em vão. 

E, numa sonata que vai acabando ao reduzir dos sons, a vida vai encerrando-se. Os dias vão passando um a um numa despedida insólita na qual, ao mesmo tempo, queremos que se nos chegue de pronto a morte, todavia ainda querendo viver mais... Somos indecisos! Quem dera fôssemos fortes de novo... Quem pediu que nos retirassem do útero materno? Nada disso teria iniciado. 

Então, no entardecer da vida, o sol se pondo para nós no horizonte enevoado da vida, deixa-nos a sós diante do momento derradeiro e obscuro da morte. Ao passo que, quando nos apresentaram a vida, demos uma inspiração profunda para então chorar, surge ao término da vida o desfalecimento das forças e, logo em seguida: damos nossa expiração final. Feito isso, encerra-se o ciclo do viver - contudo, não nos é dada a chance de chorar após expirar como nos foi dada quando inspiramos pela primeira vez...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Um dia


É fato que fico feito louco às vezes!
Há momentos de se entregar à loucura para quem pretende ser são, um dia.
Vivemos todos doentes dos olhos e dos corações, percebem ou não?
Nesse mundo repleto de mágoas, de passado torpe banhado a sangue,tudo é vão!
Vejo que todos nós temos compartilhado lágrimas e isso nos consome a alegria...
Mesmo que não percebamos, essa chaga aberta deixa dentro de nós uma dor fugidia.
Por mais que tentemos obscurecer os medos e aflições, eles voltam à tona, um dia.
Sei bem que doses de loucura precisam ser dosadas, entretanto!
Afinal, ser louco a todo momento pode trazer transtornos e pranto.
Mas é preciso sair de dentro de nós, vez ou outra, um lampejo de insanidade, não?
Quer seja um grito abafado no travesseiro, ou o ato de jogar um copo no chão...
Surgem lágrimas teimosas que escondemos, afinal: quem se importa nesse mundo cão?
Hoje uma criança morre enquanto brincava de querer ser gente grande e livre.
Ontem morreram tantas outras e infelizmente não foi um pesadelo que tive.
É a realidade do mundo mostrar-nos o quanto somos feras sem controle algum!
Se Deus foi quem criou o homem, penso: equivocou-se ou não há Deus, nenhum.
Se Ele existe, espero que seja responsável e tome melhores atitudes sobre nós!
Afinal, pai que traz filho ao mundo, mas o abandona ao sofrimento, não é pai, é algoz.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

(homenagem aos que sofrem e morrem, migrando de um lugar a outro do planeta, na busca da felicidade)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ainda escravos

O povo brasileiro, sonhando com a redenção, 
Sonha trazer para si um futuro nas mãos...
Chegou a pensar ter superado os tempos de tensão,
Mas refrescou sua alma em açudes vãos.

Ainda preso no tronco, vê o senhor extrair seu pranto.
Nas chibatadas do tempo, perdeu o couro no chicote.
Antes já chorou mais; hoje cai apenas pelo canto
Uma última lágrima que chegará ao chão, com sorte.

Cansado como o preto velho sábio, de bengala,
Fumando cachimbo e aproveitando seus dias, liberto,
Vê dentro de si a esperança, morrendo, que cala,
Olha o futuro sem ver seus rebentos livres, incerto.

A luz do amanhã que acreditou, por ora lhe cega.
Deixaram a névoa do engano ressurgir, sorrateira.
Ao netinho, apavorado, ainda escravo, ele nega
Que segue de novo o povo sem eira nem beira.

O caboclo, matuto cansado, vê seu senhor passar,
Ileso, com chicote nas mãos, babando de alegria.
Entendeu agora ter optado cedo demais por se calar
E que ficará aos seus rebentos sonhar à luz do dia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


Observação: o povo é retratado a partir de suas origens negras, povo que tanto sofreu, sonhando coma liberdade, a luz de um novo amanhã. A sensação de esperança de um dia ver as desigualdades seculares no país são novamente escassas no tempo atual. Pensou-se por um momento que poderíamos estar ficando livre dos "senhores", mas não. Eles ressurgem sempre enquanto nós, seguimos escravos com outrora éramos - ou nunca de fato deixamos de ser.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Na terra dos sonhos

Hoje, decidi comprar um pedaço de terra nas terras dos meus sonhos. Garantir um espaço, mesmo que pequeno, por lá. Não tenho sido muito desses que costumam sonhar. Tenho abandonado em muito meus sonhos, os deixando de lado como pedaços de mim que deixo cair no chão e tenho esquecido de pegar. Mas são parte de mim. Sonhos são nossos. Sonhos somos nós, talvez. Por isso, decidi marcar território na terra dos meus sonhos.

Pretendo cultivar lindos jardins, plantações que se percam de vista... Ah, seria ótimo poder desfrutar da presença de muitos outros por lá. Quem sabe todos os sonhos se somem num imenso território sem muros, sem grades, sem cercas? Como se fôssemos todos um sonho só, entende? Seria lindo. Seria ótimo... Quisera eu que fosse verdade, mas, por ora, apenas decidi adquirir em definitivo um pedaço de terra nas terras de meus sonhos. Já é um começo. 

Estive perdendo tempo demais achando que sonhos são terras que nos dão. Não! Assim como todos têm o sonho da casa própria, não podemos esquecer do sonho do sonho próprio. Sim! Cada um tem o seu, ou os seus... Tendo sonhado no singular ou plural, todos devemos sonhar. Sonhos distintos, peculiares, que se identifiquem conosco e com o mundo que esperamos, sempre. Por vezes, nosso sonho é simplesmente poder sonhar. Que assim seja. Vivemos dias de medos, desesperos consonantes com o terror que tem sido nosso mundo, mas há espaço para todos nas terras dos sonhos. 

Sonhem. Adquiram seu pedaço de terra nas terras dos sonhos. Quem sabe nos encontremos por lá e façamos livres, sem cercas ou muros, as divisas de nossas terras?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Lá se foi...

Lá se vai... Lá...! Esteve mal por longo tempo. Aguardou a chegada da esperança, mas ela surpreendeu negativamente, não mostrou-se presente. A fé não chegou a faltar, entretanto. Pensando bem, não que a fé não seja, em si, algo de esperança, sei lá, mas isso é uma abordagem ampla para essas palavras e não quero refletir nelas nesse momento... 

Enquanto os dias passavam, a vida ia passando junto das horas que iam também, uma a uma, somando-se para ela, na curta vida dela. Batida a batida do coração, respiração a respiração, até que, chegou o dia dia derradeiro em que não respirou mais e o coração cansou de bater sozinho. Ele já estava cansado... 

A vontade de existir, uma hora, cessa. Não sei bem se é do corpo ou da alma que parte a vontade de desistir e buscar aquilo que venha após a morte, o fim inevitável que aparentemente somos fadados a desconsiderar na vida comum para aceitarmos a condição de existir. Mas essa vontade de abandonar tudo e se entregar ao que há além existe dentro de nós, obscura. Eis que então um dia ela manifesta-se e toma conta de tudo para certas pessoas. 

A morte é o que há além do último suspiro. O último suspiro pode ser nossa última lembrança, decerto... É ele o rompimento das amarras que nos prendem à vida humana, tão curta, passageira - para uns, mais que para outros, infelizmente.

Alguns são escolhidos para o sofrimento, penso. Não sei se Deus tinha em mente isso quando criou o mundo. Será que Ele pensou bem quando criou o sofrimento? O fato de ser alegre ou de sofrer não é democrático. Alegria e sofrimento escolhem quem querem seguir e não largam, por vezes. São realidades teimosas em muitas situações. Se alegres, ótimo, mas e quando sofrendo? Sofrer é um processo de morte lenta, não apenas a morte lenta é um processo de sofrer.

Vez ou outra, surgem aqueles que têm a sorte de romper momentos de sofrimento e manter momentos de alegria por longos períodos. Algo como se algumas pessoas tivessem a sorte de, sendo escolhidas, poderem ter uma vida com mais alegrias que sofrimento. Esses são os verdadeiros esperançosos! Conseguiram ser brindados pela benção do olhar de Deus e têm esperanças nEle. Deus enxerga todos, mas não estende as mãos a todos - será? Não sei, mas há mesmo aqueles que sofrem mais que outros e isso me dói, me revolta, me inquieta. Que Deus me perdoe.

No mais, sei apenas que lá se vai... Lá... Outra alma que foi-se. Foi-se embora mais uma criança do mundo aguardando a benção da alegria, da esperança de alcançar os sonhos que tinha, mas morreu sem brindar testemunhando esse dia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Pedido a Deus


Não quero apenas a sorte, quero, ao destino, um norte. Nem tampouco, meramente, esperar a morte. Quero viver a vida com o espírito de um forte.

Quem dera fosse fácil a existência. Superar as expectativas alcançando a independência. Quem dera eu fosse um hábil humano e, com decência, atingisse meu máximo com incomparável competência.

Queria poder ser mais que sou, desde a partida - afinal, a gente se camufla desde o começo da vida. Ora somos o melhor filho, ora o melhor amante da amada querida... Quando sobra tempo ao que sonhamos na infância perdida?

Quem dera viver fosse fácil ou fosse doce... Na vida, nada se pega (e nem se prega) sem martírio que fosse trazer a redenção (ou não) ao fiel e ao pagão. O que Deus quer de todos nós? Mesmo que a sós, um exemplo de amor - ou não?

Amor Deus queria quando escreveram seus livros... São tantas as religiões, mas a qual delas eu sirvo? Eu mesmo não sei, quem dera soubesse... Nem Jesus pediu que seguissem somente o que ele dissesse.

Por ora vejo que há tantos pregadores da fé. É pastor de carro importado e o fiel a pé? Que fé é essa que enriquece o dominante com a palavra? O fiel pra pagar dízimo acorda cedo e até tarde se acaba.

Que Deus é esse que quer construir na sua sacada um cinema intocável que passa história marcada pra terminar quando Ele quer, afinal Ele manda? Quem disse que seria assim? Nem cheguei ao mundo e já quer que eu pague a comanda?

Que pecado eu fiz então quando Adão sucumbiu? Que cobra era aquela que ele escolheu e seguiu? Quem era eu que nem mesmo havia nascido, mas Deus, desde então, aplicou em mim um castigo?

E a Eva, eu pergunto: que moça era aquela? É verdade que Deus me castiga pela maça que foi dela? Que mal eu fiz a Deus pra já nascer castigado? Adão, Eva e cobra, em conluio, me fizeram condenado?

Deus espera muito de nós, é fato. Quem dera fosse fácil aceitar "pagar o pato". Mas nem mesmo há consenso quanto à Sua palavra, Deus. Quem dera houvesse trégua para nós, filhos Seus.

Cansado, então, sigo de cá esperando... Que venha a solução para nós. Estamos aqui caminhando? Chegado o dia em que Deus enfim nos perdoe: teremos pagado a conta - mesmo que doe?

Faz tempo que sonho com um mundo de esperança. Sonho hoje, adulto, e sonhei quando criança. Peço ainda a Deus que nos retire o luto pela morte do Éden. Desde o início eu luto, mas quantos de nós cedem?

De fato é difícil aceitar tudo calado. Ajude meu Deus, estou aqui (,) obrigado. Também é filho Teu o pobre na esquina que pede um trocado. Tão filho quanto Adão, mas o que ele fez pra ser culpado, o coitado?

Deus, Jeová, Alá, quem quer que seja, ouçam o pedido que faço, a humanidade almeja: deixem o povo seguir, conforme queira, no bem. Claro, com amor, fraternidade, educação.. Enfim, amém!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Do amor



A gente se viu, parados, de canto...
Fez-se na hora o alarde devido.
Mal sabia eu que, dali, surgia um encanto.
Vi-me no olhar pelo qual fui arremetido.

Fui vendo, aos poucos, se criando
Algo de bom que hoje me perfaz.
Mal sabia eu que, me apaixonando,
Estaria, enfim, redivivo, alcançando a paz.

A paz que faltava, que há tempos eu queria,
Em vendo teus olhos, através deles encontrei.
Em tendo teus braços, toda minh`alma sorria:
Era o amor que faltava - antes, não sabia; hoje sei.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Palavras longevas



Eis que grito: "não me venha com meias verdades em palavras ditas e caladas, pela metade..."

Quero, decerto, versões inteiras, em palavras longevas, de discursos consonantes.
Quero sentimentos íntegros e sinceros para além de um, se porventura haja, passado chulo,
Que façam romperem-se nos ímpetos de alcançar o amor real.
O que houver ademais, é nulo!
O que não for demais, eu pulo!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Alma não tem cor

Alma não tem cor. Se houvesse de ter, qual cor então teria Deus, se alma Ele tivesse? Se o céu, que é azul, é onde Deus habita, que falaríamos nós da terra, marrom que é, ou das matas, verdes que são, que, em suas cores, do céu diferem? São menos de Deus (ou para Deus) que qualquer outra coisa? Nem mesmo o céu, tal como é: casa de Deus, sabe escolher sua cor, afinal é claro de dia, escuro à noite...

Quiçá houvesse nas anotações de Deus um privilégio dessa ou daquela cor, mas, caso Ele tenha diferenciado em seus julgamentos umas das outras, guardou para si seu próprio referendo. Não quero aqui adentrar em temáticas amplas, ou quaisquer polêmicas que haja. Quero apenas dizer que alma não tem cor, nem amor verdadeiro tem dissabor ou credo ou pudor. Nem tampouco há espaço (ou contextos) para que eu e tu de nós mesmos nos afastemos. Ademais, de eu e tu, o mais real que há é: somos meramente dois pronomes. Nem mesmo a gramática nos diferencia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Cumpriu sua sentença

Viver é estar dia após dia em decadência. Decadência essa que não cessa. Por mais que eu abra a porta e deixe de espreitar a alegria por trás de uma simples fresta, a tristeza espreita-me na retaguarda pronta para atirar-se por sobre mim e retirar tudo aquilo que me resta. Eis que a morte surge nesse dia! Afinal, a morte urge. Viver é nada, já disseram...

Viver é acabar-se ao longo das horas. É destrinchar os órgãos vitais como quem luta por sobreviver apesar de saber-se futuro defunto. Decerto, somos todos, sim, "cadáveres adiados" conforme diria Pessoa. Mas o que de mais belo há para além dessa realidade fria? Que viver é também a arte de entreter-se, embora isso seja enganar-se, como quem no âmago do próprio ser convence a si mesmo de que não morrerá e tudo passa a ser tido por eterno. O sonho de deixar marcas pelo mundo. O sonho de nunca morrer. O sonho de ser sempre jovem tal qual Peter Pan. O sonho de haver uma porta que se abre após o último fechar dos olhos com o suspiro derradeiro da morte. Decerto, sonhar em nunca morrer e justificar a vida que existe hoje é o que há para ser feito, afinal por qual motivos haveríamos de pensar em céu e inferno?

Eis que dia após dia consumimos nossas células e nossas energias esvaem-se como que gota a gota. Na decadência do ser que somos, nessas sociedades que habitamos fadadas à derrocada, competimos conosco próprios em relação ao ontem tentando provar para nós mesmos que a decadência inefável está ficando para trás, sendo esquecida ou até mesmo vencida, deixada sobreposta e derrotada por nosso progresso diário, fruto de nossos esforços de sobrevivência. Triste e pueril constatação é a nossa quando pensamos estar enganando a morte, lutando com tanta ênfase para estarmos vivos... E o que seria então o morrer? O cumprir de uma sentença, fato é. Já diria João Grilo na obra célebre de Suassuna: "cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre".

Viver é estar constantemente em decadência e, paralelo a isso, em luta pela sobrevivência. Viver é estar dia após dia mais próximo da morte, futuro certo - triste, mas inegável fato. Viver é estar dia após dia perdendo coisas e pessoas na estrada incerta e inconstante do existir. Viver é tentar entender o que há ao redor, sempre, até que os olhos, já tremendamente cansados de olhar, acompanhando o corpo carcomido pelos anos, percam-se no horizonte que jaz em escuridão enquanto entregam-se ao que há de vir para além do último suspiro.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segue esse texto como uma tentativa de reverenciar a figura e à todas as contribuições trazidas até nossa cultura por Antônio Abujamra (falecido em 28 de abril de 2015)

Grito da alma

Passei uma vida inteira calado, por mim esquecido...
Calei minha boca enquanto gritava a minha alma.
O grito que ecoava-me de dentro não foi ouvido...
Ouço-o agora, mas não há remédio que me traga calma.

Quem diria que seria eu um alguém assim?
Antes, tão sorridente ao olhar de todos, eu agradava.
Hoje, de tanto calar-me, ensimesmado, em mim
Soa o tom de desesperança que eu já suspeitava.

As pessoas não nos querem bem, decerto!
Querem apenas que não as incomode nossa tristeza!
É triste e grosseiro afirmar isso como certo, 
Mas foi o que concluí em noites acordado, sob luz acesa.

Queremos a harmonia dos padrões de beleza no mundo!
Aquilo que é triste, destoa dessa mentalidade vigente.
Não há espaço a quem tenha-se por embotado, profundo...
Quem em si mesmo mergulha, faz-se ao mundo demente.

E assim, tido por louco, excêntrico, distante: sigo!
Quisera eu um dia sentir na vida ares de bem estar...
Sim, raras são as pessoas que nos queiram, de fato, consigo,
Mas saibamos todos nós, embotados: abrir portas, recomeçar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O que bate à nossa porta?

Afinal, o que importa é só o que bate à nossa porta. Foi o que conclui refletindo sentado na calçada vendo todos passando. A tristeza da miséria em nada nos comove, mas caso fiquemos miseráveis um dia, aí sim exigiremos medidas de outrem, do governo inclusive, quiçá. Claro! Desta feita, criticam-se medidas sociais. Quem critica? Todos os que dormem em sua cama confortável, após sua janta farta, prontos para despertar horas após para pegar seus carros e irem para seus empregos garantidos. Não espero mais nada do homem...

"Bolsa-isso", "bolsa-aquilo", isso é coisa para fomentar vagabundos, correto? Peço aos cidadãos que assim pensam: sejam pobres, miseráveis... Sejam descendentes de antepassados que foram escravizados, torturados, expostos às mais vis atrocidades com o objetivo de gerar lucros ao seu senhor. Após serem isso, venham me dizer sobre "bolsa-isso" ou "bolsa-aquilo" com esse habitual tom de deboche. Deixem que batam à sua porta a pobreza e a miséria ou a atrocidade do nosso passado torpe. De fato, não espero mais nada do homem...

Na calçada, tropeçamos. Olhamos para baixo - pois nossos olhos estão sempre voltados para o céu, afinal: somos tão altivos - e eis que sob os nossos pés, estava um mendigo. "Vagabundo", "bêbado" e outros nomes chegam à mente, correto? A culpa é do governo que não desaparece com essa gente - já pensaram assim num país chamado Alemanha... Vocês que assim pensam (e agem): já procuraram conversar com algum ou ajudar de fato? Sabem a história de vida desses? Se suas vidas fossem também ou regada a tragédias, ou a miséria sem fim, ou a um processo depressivo associado ao alcoolismo e uso de drogas, quiçá: vocês estariam em situação diferente? Não! Poderiam sim estar ali, bem ali na calçada sob os pés limpinhos da classe média que passa empavonada - afinal, a classe alta passa de carro e não se dá ao desfrute de caminhar por calçadas. Em sendo vocês aquele mendigo, vocês olhariam nos olhos das pessoas e diriam o que? "Obrigado, estou satisfeito" ou "por favor, me dê uns trocados para comer?". Triste pensar como o conforto endurece e seca a alma das pessoas.  Não espero mais nada das pessoas...

O mundo é cruel, mas as pessoas fazem o mundo! Erros e acertos, quem os faz e se consomem nisso, são os homens. Eis que sonegam-se impostos por todo lado. Em nosso país - esse amontoado de terra produtiva e de gente com propósitos tão diversos -, o acumulado de dívidas desse povo varonil já soma montes acima de um trilhão. Mas é esse mesmo povo devedor que, quando vê seu dinheiro ser mal empregado (ou culmine com aumento de juros, do dólar e da gasolina, claro!), toma para si o discurso da ética, dos bons costumes, visando o aplauso meritório assim como o bandido arrependido... Não! Basta! Não espero mais nada do brasileiro...

O pobre que morre na periferia, ou pelo policial mal remunerado e mal preparado, ou ainda pela bala do traficante enraivecido, não nos comove. Assumam isso! Mas causam enorme comoção mortes de um filho nosso de classe média ou outro da alta. Eis que a comoção é vomitada após isso. Mas não ligamos e nada fazemos pela comoção das mães e pais da periferia. Aparentemente, esquecemos (ou negamos!) o fato de que morrem inocentes há centenas de anos em nosso país e nada fazem (ou fizemos) por eles - quando são pobres e de periferia, que morram! Pobreza, afinal, para nossas classes média e alta, é sinônimo de preguiça, correto? Pobre que busque por si mesmo seu sucesso, não é? Cotas? Claro que não! Quase que ouço alguém indagando nesse momento em tons enraivecidos: "já fazem quase 150 anos que a escravidão acabou", ou ainda: "nossos antepassados curaram o mal que fizeram ao povo traficado para cá em tendo assinado a Lei Áurea". Após rir desse devaneio, penso: esses 150 anos conseguem superar a desgraça feita para com todo esse povo e seus descendentes? Fosse você que pensa daquela maneira um desses afrodescendentes: estaria já perdoando o mal que fizeram aos seus familiares de tão pouco tempo atrás? Negaria que as cotas são no mínimo uma tentativa de retribuição?  Não espero mais nada da mente humana...

Há poucas décadas, retirantes vinham do nordeste empoeirado - eles próprios também empoeirados - sem direito à água, sem dinheiro, quase sem roupas, tendo seus pertences sido colocados em algibeiras ou enrolados como tralhas em pedaços de pano, rumando aos grandes centros para buscar vida digna sonhada - afinal estavam esquecidos há séculos. Caso você passasse por isso, tivesse em seu sangue esse passado, em suas memórias esses rancores: defenderia que bolsa família ou outros incentivos ao fim das desigualdades tenham que acabar ou nem deveriam existir? E o sonho de casa própria? "Minha Casa Minha Vida" é coisa de gente torta, anti-ética, corrupta? Não! São tentativas - mesmo que mal geridas, mas isso é outra questão - de corrigir erros e incongruências do passado. Mas esses erros do passado que tentam corrigir não bateram à nossa porta nem esvaziaram (por centenas de anos) nossas panelas - panelas essas que antes ficavam penduradas, vazias, enquanto nossos estômagos roncavam. Hoje, panelas nossas dão-se ao desfrute de incomodar os vizinhos em "panelaços" pseudo-altruístas ou cívicos. Não, não espero mesmo mais nada do brasileiro, nem de suas mentes...

Aos goles de uma bebida qualquer, agora já na bancada de um bar, penso que a felicidade está naquele que teve a sorte de morrer cedo, quando ainda não entendia o funcionamento e as atrocidades do mundo. Encerrado o último gole daquela noite, concluí: Jesus um dia pregou que compartilhássemos, dividíssemos e que não fôssemos mesquinhos como aqueles ricos que querem levar para a tumba seu ouro. Mas entendo que, quando Jesus disse aquilo, essa coisa toda de compartilhar e ajudar os pobres, talvez Ele estivesse brincando - mas fato é que Deus brincando também devia estar quando nos criou homens tão, digamos assim , hipócritas.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 26 de maio de 2015

Lápide

Quando eu morrer, quero que eu vá rememorando Suassuna, deixando em minha lápide a seguinte frase: "Encontrou-se com o mal irremediável (...) porque tudo que é vivo, morre". Quem sou eu para pensar-me distinto de outrem e decidir por não aceitar morrer?

Todos nós, assim que nascemos, criamos uma dívida com a existência. Tal dívida, pagamos com a morte. Ambos, nascer e morrer, nos são dados gratuitamente. Do primeiro, nunca teremos oportunidade de pretender e nem mesmo nos perguntam nada sobre. Do segundo, entretanto, podemos criar aspectos pessoais nele, trazendo tal pagamento para antes da devida hora determinada... Sabe-se lá. 

Cada um paga sua dívida conforme acredite ser correto, ou aceite ser dentro de suas possibilidades, não? Entendo então quem queira pagar sua dívida antes e também quem nunca queira pagar, esperando permanecer vivo eternamente. Eu, de minha parte, quero morrer ao devido tempo da estipulada dívida, tempo esse que me foi confiado por minha existência desde o nascer. 

Vivo, aguardarei minha sentença, mas nada de trazê-la para antes de seu devido tempo. Não sou de antecipar pagamentos. Sabe-se lá qual dívida nova estaria eu criando...? Eis então que serei apenas testemunha do dia do pagamento, não, entretanto, farei de mim criador de nova dívida. Sabe-se lá como ela seria cobrada...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Você já liberou seu ódio hoje?

O título desse texto, será parte do início de seu corpo: "você já liberou seu ódio hoje?". Quem anda perguntando-se isso? Sabe-se lá... Afinal, eu sou um cara estranho. Dessa forma, em sendo estranho, dou-me o direito de fazer perguntas estranhas, decerto. Eis a minha de hoje quando olhei os noticiários e observei o comportamento humano através das ruas e mais ainda das redes sociais. Além de estranho, sou pessimista, valho-me daqui para dizer. Ainda bem que minha estranheza ainda me permite trazer algo de bom humor enquanto olho as coisas, caso contrário meu pessimismo que é bastante grande tomaria conta de mim e de meus olhos, Eu estaria de olhos ardendo ou cego caso não me deixa-se ter essa parcela de bom humor diante do mundo em que me insiro.


Vejo o mundo em total destempero e despreparo para a convivência social. Sim, isso não é novidade nem uma descoberta da minha estranheza ou de meu pessimismo. Sempre fomos seres violentos, pouco cooperativos diante da desgraça alheia e cruéis, é fato. Decerto, entendi observando: com o advento da internet e das redes sociais, com essa ultra-exposição em tempo real, vinte e quatro horas por dia, nessa corriqueira e incessante divulgação de ideias e ideais que se assemelham ou divergem do que temos por fato social, conforme conceitos de Durkheim, vejo que estamos nos atrevendo a adentrar territórios antes já percorridos. Territórios esses que já deram muito errado e muitos morreram. Sim, falo dos totalitarismos, das incapacidades de reconhecer o diferente e aceitá-lo, do radicalismo torpe e intolerante. 

Quanto ao conceito de fato social citado, em linhas gerais, eu definiria, pelo que entendo (e desculpem-me os estudiosos do assunto se me equivoco), como a inserção de "normas" em maneiras de agir, sentir e pensar que temos por socialmente aceitas e que exercem, por isso, sobre nós um poder de coerção - consciente ou inconscientemente - enquanto indivíduos sociais que somos, inevitavelmente. Aceitar a nós todos enquanto fadados ao convívio com o outro e, por isso, ter também que aceitar as diferenças, seria necessidade premente, mas ainda não aprendemos isso e, o que é ainda pior nisso tudo: estamos refinando a disseminação de intolerâncias e métodos de violências perpetuadas, sob nosso silêncio, sob nossa aceitação pacata - afinal, concordando ou simplesmente não impondo forças contrárias para frear o processos em si nos torna coniventes

Vi por diversas vezes recentemente discursos de parlamentares incitando, sim, incitando intolerâncias, violências, estupro, sim, estupro e até mesmo agressão física. Está para todos verem nas redes sociais, redes de arquivos em vídeos pela internet etc. Vi isso difundido na mídia, vomitado nos jornais sem uma ampla discussão ou alarde quanto aos discursos mediante os quais me vejo pasmo. Testemunhei, ademais, assustado, o discurso ser endossado, defendido por tantos brasileiros. Todos leram? Ouviram? Não sei. Como disse: sou estranho! Posso ter ouvido, lido e entendido tudo errado de todos os discursos, de toda aquela, para mim, incitação de intolerâncias e violências. Além disso, parlamentares, sim, parlamentares - representantes do povo e das leis que tomam ou hão de tomar rumos - com discursos agressivos contra pobres, nordestinos, menores de idade caídos mediante a "bandidagem", contra homossexuais... Também vi isso. Viram? Nem sei o que pensar.

Claro, há riscos de erros e surgimento de discursos agressivos quando qualquer conjunto de humanos reúna-se para debater qualquer tema, ainda mais quando seja polêmico, mais ainda: quando ultrapassa os limites impetrados do fato social de Durkheim em nós. Mas o que será desses discursos e dos atos de agressividade que temos a cada dia mais aflorados e vulgarizados, pluralizados? Serão mesmo assim tolerados, impunemente? Sabe-se lá o que irei eu acreditar de expectativa de mundo para os meus filhos - filhos esses que hoje nem mesmo mais penso em tê-los, pois já os amo e quero a eles o bem.

Ora, temos por normais, corriqueiras, atitudes de agressividade e violência no trânsito, na prática de esportes (vide nosso futebol), nas retratações ora mais, ora menos reais das tele-novelas... Tudo é tido por "normal". Talvez o seja. Mas assim será? Conviveremos nesse mundo que lava as mãos frente à delinquência desenfreada de todas as esferas? O cidadão comum (exposto à educação precária que temos e à violência e impunidade que habituamo-nos a conviver nessa terra aparentemente sem lei) agir com destempero, despreparo diante das adversidades e discursos contrários com agressividade e despudor, de certa forma, até me permito tentar entender... Mas aceitar parlamentares, representantes do povo dentro do Estado, sob aplausos, defenderem seus discursos de ódio e intolerância, incitando ódios? Não consigo. Não consigo. Mas, é fato: sou estranho e mal entendo das coisas...

Porém, nas mesmas redes sociais e de mídia como um todo, vi clamores de ódio quando, em mais de uma região do país, tivemos pobres sendo achincalhados, espancados, amarrados em postes após delitos, a despeito da lei vigente que naturalmente tomaria parte nos acontecidos... Aquele ladrão qualquer (não foi apenas um, mas vamos em frente), aquele, melhor dizendo, ladrão pobre qualquer (nascido e criado em meio às dificuldades das periferias, exposto às violências e injustiças diárias às populações menos favorecidas - fato que logicamente não justifica, mas entra em questão) quando roubou, teve contra ele todos clamando por "justiça" e querendo punição, prisão, violência contra o mesmo. Quiseram também condenação - mesmo que ele fosse "menor de idade". E os "maiores de idade" representantes do Estado? E os discursos de ódio? Incitam algo? Atrapalham em algo? Devemos agir de alguma forma? Em resumo: apenas devemos culpar, bradar contra e criminalizar o ladrão "comum" que, numa rua comum, roubar coisa comum - qualquer que seja? Seremos intolerantes apenas com esse fato, decerto... 

Enfim, eu já esperava. A intolerância e as "violências" não serão todas elas punidas. Afinal, os parlamentares que estão a dizer coisas, agitando bandeiras de intolerâncias, violências e radicalismos, todos eles, foram entregues à representação do povo por nossa conta, por nós próprios: o povo! Que assim seja então - ou em vão , quiçá. De tudo, apenas sei que sou mero ser estranho tentando me adequar. Concluí, algo desanimado: é mais fácil odiar que tentar entender e, com isso, mudar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier