segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Foco, força e fé

O tempo surge estranho, ás vezes... Claro, por tempo, entendemos muitas coisas. Estações do ano, o clima do dia, as passadas do relógio, os dias do calendário, as fases da vida... Há tempos demais para discutirmos. Mas, aquele que traz mais identificação conosco em termos de nossas preocupações é o que diz respeito à passagem das fases da vida.

Hoje, menos jovens que ontem. Amanhã, idem. Não nos formamos para envelhecer.  A maior parte da vida trazemos dentro de nós a certeza de que somos fortes, fortes, jovens, quiçá... Por vezes, claro, é humano isso: nos enganamos. Mas é fato que boa parte da vida passamos fingindo que desconhecemos o fato do tempo nunca parar.

O relógio é um incansável. A velhice nos chama, sorrateira. O idade pesa, pouco a pouco, dia a dia... Eis que a imagem da força e personalidade decidida, auto-confiante vai sendo retirada de nós. Vamos sendo segundo plano de nós mesmos. Antes de tudo, dos sonhos que temos, das vontades que trazemos, chega o dia em que passamos a nos preocupar mais com a subsistência, a saúde para o dia de amanhã, pois já hoje está em falta... É, sinais de que o tempo nos laçou.

Mas, será mesmo que deveria ser diferente? Todos os elementos da natureza (exceto as pedras, talvez) mudam ao longo da vida, em sua essência, em sua imagem, em sua aparência e força. Não? Acho que sim. Até as rochas, a bem dizer, vão mudando, mas são mais teimosas. Mudam aos poucos, esfarelando de forma bem serena... Quem sabe elas estejam certas nisso?

Fato é que o tempo passa para todos - seres vivos e inominados. Somos parte de uma essência que desconhecemos a origem, desconhecemos a existência e, logo: não sabemos em que vai dar. Sabemos apenas que ontem as dores nas costas não existiam, ou as dos joelhos, ou as da memória... Ah, as dores da memória. Doem muito enquanto o processo de envelhecer nos acontece. 

Mantenhamos, entretanto, a mente livre, os sonhos sempre vigentes, as vontades da alma mais fortes que as dores do corpo, as tristezas da alma... Sejamos fortes, não necessariamente jovens. O tempo, afinal, não controlamos, mas podemos controlar a nós mesmos e os nossos passos diante das adversidades. Se o tempo é algoz, que saibamos vencê-lo. Basta foco, força, fé... 
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Voa! Planta! Colhe!

Vai a criança que morre a criança na comunidade, por ora: no Caju; 
Vão, e morrem, a adolescente e mais dezenas em chacinas (Osasco é só uma que ficou conhecida e ganhou destaque. Mas: e as outras?!); 
Vai o policial honesto trabalhar com medo e, quando prende algum infrator, depois de se expor tentando tirá-lo das ruas: vem advogado soltar o bandido, respondendo em liberdade, pois a lei permite (compra e cala!); 
Vai o playboy comprar droga no morro e financiar o tráfico e "pagar" nas mobilizações "pinta" de honesto e nacionalista; 
Vai o helicóptero com mais de 400 Kg de cocaína que voa sob desdém da mídia (e conivência do povo e políticos); 
Vai o "aviãozinho", morrer como bandido, correndo na rua, em meio ao tiroteio, pois não teve como enxergar alternativas educacionais para seu "vôo"...

Criam-se crimes para vender segurança. Vendem segurança a preço de convencimento do caos. Convencem do caos comprando espaço na mídia. Comprada a mídia, vende-se a alienação para o sensacionalismo tendencioso. Alienados: morremos (ou permitimos que morram!) cidadãos comuns, inocentes! Terra sem lei? Terreno farto em covas! 

Nesse processo: Plantam a semente do ódio... Plantam a semente da impunidade... Plantam a semente da alienação... Plantam a semente da condenação prévia daqueles que tem o azar de ter um vizinho bandido. É isso? Mas isso é só coisa de periferia? Será? Não são os fatos que comovem, mas o alvo do fato? Quem colherá os frutos? Quem (im)planta discursos à bala, cava a cova de gente inocente - mais que qualquer outra coisa.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Carta ao filho(a) que não tenho

Olá, criança amada. 

Estás bem por aí? Perdoe meu jeito de falar, mas teu pai não é dos mais sabidos. Tentei comunicar contigo por esses dias, mas não consigo ouvir sinais teus ainda. Queria alertá-lo sobre como estão as coisas por aqui, ir te atualizando, sabe? É bem verdade, e deves ter recebido informação de teus superiores, que ainda estão morrendo muitos de forma imensamente trágica aqui. Pois é! Nos últimos dias, muitas pessoas têm morrido sabe como? Atravessando mares e terras tentando fugir de guerras e alcançar um futuro digno de um filho de Deus. Sabia disso? Guerras criadas por gente que hoje diz querer a paz, sabe disso? Ironia, cinismo? Não sei bem. Acho que não sabes também, mas vais entender isso um dia. Daí onde se encontra, sei que não há espíritos ruins como os que temos aqui, mas não se assuste: papai está bem! Papai teve a sorte de nascer dentro do grupo de pessoas privilegiadas daqui. Deu sorte no nascer, saiba.

Criança amada, teu pai nunca passou fome, sabe? Nem frio. Nem sede. Isso é ótimo, não? Era para ser assim a todos, mas estamos longe disso. Deve ser horrenda a sensação de não ter um banho quente para tomar, ou um copo de água para saciar a vontade beber, ou um lanche para despistar a fome. Sede, fome, frio... São dores descabidas, sabe? Mas nem comovem tanto quanto deveriam - digo isso da maior parte, pois nem todos são tão cruéis nos tempos de teu pai. Não me entenda mal! 

Sonho e peço que nunca venhas a sofrer disso! Peço a Deus todos os dias para que teu tempo seja de dias melhores para todos: pobre, rico, negro, índio, branco! Tenho tentado fazer minha parte ajudando no que vejo-me capaz, afinal: eu tenho obrigação de tentar ajudar! Não pense que teu pai faz muito. Não, não faço. O que faço é obrigação, pois, como eu disse: tive sorte de nascer com privilégios que me amparam o caminhar. Entendes bem? Repito, criança: seu papai foi privilegiado em poder ter condições de existir nesse planeta com conforto no cotidiano. Preciso ser, então, o melhor que eu possa no todo que eu venha a me prestar a fazer. Tornar os meus privilégios uma força motriz que alavanque uma luta por melhorias para todos, sabe? Sei que me entende e saberá exercer um bom exemplo quando vieres ter comigo alguns anos em sua vida na matéria.

Criança amada, avise às demais crianças que se encontrem perto de nascer e que estejam aí, perto de ti: o mundo não está nada bom! Avise à todas elas aquilo que já reforcei contigo anteriormente: tenham espírito forte. Sim! É muito necessário tê-lo nesse mundo! A imensidão de informações que nos incentivam no erro são muito mais trabalhadas e divulgadas que aquelas que nos fomentam acertar e agir pelo bem, sabe? Essa realidade vem de todos os lados, de onde menos se espera... Sim, as tragédias e comoções seletivas geram alarde. Chamamos aqui de ibope. Conheces daí? Quando uma tragédia existe, não se preocupam em criar soluções, mas ampliá-la e levar todos à situação de medo sem medidas. Aviso logo: aterrorizado e sem esperança, o povo é igual gado diante do capataz de chicote em punho: vai para onde mandam; nem pensam; nem agem além do que se lhes é imposto! Entende? Nunca tema a ponto de parar de seguir no pensar e no agir, filho! 

Teu pai tem visto, criança, que têm todos os meios de comunicação atuais trabalhado (como sempre fizeram, é bem verdade) muito bem em nos retirar as esperanças, em nos incentivar a não querer fazer melhor as coisas, em não lutar pelos direitos dos desprivilegiados. Ou seja: nos mandam manter tudo como está, em resumo. Sabe? Ademais, embora finjam que não: as redes de mídia do tempo de teu pai até chegam a incentivar pessoas a ter raiva e intolerância à existência de outras gentes que pensem diferente, ou ajam diferente, ou sejam diferentes, simplesmente. Incentivam nisso um ódio às pessoas desprovidas de privilégios, ou melhor "privilégios" (entra aspas, pois saiba: na verdade isso era para ser direito de todos) como comer, trabalhar, ter direito de ir e vir sem serem olhados de soslaio e com desdém, ou de amar quem bem queiram sem sofrer qualquer discriminação. Sabe? Saiba! Não ter privilégios e querer ter é quase um ultraje para muitos, sabe? Há gente aqui que não é de "se misturar", perceberás desde daí de cima isso... Nem devem ser tantas as pessoas do tempo de teu pai que chegam aí, creio eu!

Enfim: tenho tentado falar com você, criança, mas acho que não sei rezar bem, atingindo os ouvidos de espíritos de luz como você ou os demais que se preparam para encarnar nesse planeta para nos salvar rumo à evolução esperada, sonhada... Mas, deixo aqui mais uma tentativa de contato.

No mais, reze pelo tempo de teu pai e te prepares para a luta: será árdua à sua geração de espíritos corrigir tantos erros que a geração de teu pai tem deixado. Perdão! Peço a ti e passe isso a todos os demais, por favor.

Abraços bem apertados daquele que te ama amor tão grande que é mais de mil vezes qualquer número ao tamanho que eu possa dar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ao compadre amigo meu

Que tempos são esses em que as pessoas mais buscam conforto do que respostas? Paro. Indago outra vez! Que tempos são esses em que as pessoas buscam mais respostas confortáveis do que a verdade pura? Sim, confesso, tenho observado pasmo o tempo em que vivo. Todo vivente hoje sabe de si e do mundo um barranco alto de coisas empilhadas como verdades incontestáveis, sabe? Mas ninguém quer saber de subir em cima de si e de seu monte de tralhas para olhar as tais verdades, entende? Se sobe pra testar firmeza, cai de lá e machuca por inteiro. Vira farrapo no chão. Cai das verdades esfarrapadas que achou firmes, sólidas.... 

Verdade pura é caminho, é plana, vai indo pela terra; ou plana leve e livre se vai pelo ar. Não sobe. Não é de hierarquias de alturas. Sabe? Não há barranco ou monte que se faça de verdades. Há apenas um atoleiro de mentiras ou azedumes de barrancos dispersos em verdades compradas a preço barato ou dadas.

Sabe? Reforço: sei de mim quase que nada. Observo tudo quanto há e vejo que, naquilo tudo, transparece um tanto de mim que diverge do eu que me faço, fingindo ser pra todos (e pra eu mesmo, sabe?)... Entende? Digo bonito agora: sei que é mais fácil reforçar que o mundo é ruim, mas difícil mesmo, de dar dor nos calos dos pés e dos olhos: é ver que o mundo é todos nós! E isso agora? Ora, digo reforçando: nós estamos nele. Nós somos o mundo. Sabe?

Entendo que a vida vai sendo pontuada aos poucos por verdades. Verdades semeiam-se, sabe? Dadas aos poucos, de espaço em espaço... A terra, é certo, precisa estar fofa pra saber dar cabo de crescer a verdade. Quem as joga pelas terras? Não sei. Quem crê em Deus há de lhe dar medidas do cultivo, do plantio... Mas sei que as verdades vão se dando como pegadas na terra, pausadas, repetidas, aos poucos, uma a uma. Mostrando um caminho plano e amplo, sabe? Entende? Caminho que não cabe no horizonte. Desconfio que estou certo, mas não deixo pegada no chão quando digo algo... 

Das verdades da vida, há alguém que norteia, é certo. Sei lá que dá cabo disso no mundo, mas sei que: de tão ruim o homem é, tão dura é a vida, era pra nós, um a um, termos morrido já faz tempo, vê? Cá estamos todos vendo tudo. Mas ainda criando montes e barrancos de verdades que escondem o mundo vil e cão que somos, digo: que temos. 

De tempos em tempos, surge um ou outro que grita alto na rua e mostra a voz do sábio. Mas a gente desconfia, sabe? O povo carece de ter verdades confortáveis como pensar que não adianta tentar mudar as coisas, ou ainda dizer que o mundo é ruim assim desde sempre e nada há de fazer pra isso, sabe? Quem não é dos que ouve gente assim falar, falar e falar?

Quem nada tem a acrescentar é o que muito fala e toma poder nas palavras, sabe? Digo e repito: tem poder demais aquele que fala também demais e tenta acrescentar verdade demais ao mundo. Eita, quase que desfiz a frase de antes, mas o amigo entende, decerto. O amigo haverá de entender: o que tem poder e o que é podre andam, às tantas, de-lado-a-lado. Sabe? 

É verdade aquilo que disse o meu amigo tolo: "vi na televisão um bocado de verdades que nem sabia...". Mas, pobre coitado, nem sabe de televisão, nem sabe de verdade. Nem sabe, é verdade, de nada... Afinal, quem muito sabe de nós, pouco quer trazer de verdade pra nós, não cabe isso na tua cabeça? Se homem poderoso quisesse passar verdade pra nós que age de povo, nada de tantas desavença e disparate havia já hoje nos rincões desse mundo sem fim, tão sofrido. 

Ah, amigo meu, esperto seja, hoje e sempre, senão te tiram do ciso e vão você e sua história dormir no sereno, sabe? Digo mais: se acredita demais em quem te paga os contos de salário, há de chegar o dia em que nem salário e nem quem te paga você terá mais por perto. Viste? Veja.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Carta à criança que ainda não nasceu

Criança querida, filho meu (ou filha minha?),

Sei que ainda nem nasceste, mas deve estar, como dizem, "por aí". Sinto que estou tentando ser melhor a cada dia! Tenho tentado plantar um mundo onde possas sentir-se melhor, mais segura, mais livre, juro! Quero dar a ti todo o mundo, entende? Mas, entendo eu que tal mundo é plantado a partir do somatório de cada pequena ação. Desde a menor das pessoas à maior delas, desde a pequena cidadela à maior das megalópoles: cada um planta o que pode e tem pra dar. Todos fazem sua parte - decerto: para o bem e/ou para o mal. Sei que entenderás nos seus dias isso! Independente de qualquer coisa, temos de seguir tentando fazer o que seja possível, não é? Tenho tentado. Juro! Sonho com o dia em que haveremos de mudar o mundo conforme diria Eduardo Galeano: a cada pequena coisa que fazemos.

Queria ter certeza, entretanto, de estar agindo de forma correta, mas perdão, criança, se quando nasceres o mundo ainda te seja cruel. Há um destempero sem tamanho, desmedido mesmo, nas atitudes e palavras de muita gente ainda na geração de teu pai. Eu mesmo erro tanto... Percebo de consolo que pelo menos tenho tentado enxergar melhor e proceder certo a partir do que consigo ver, sabe? Todos os dias dou minha dose de erro ao mundo, todavia. É uma pena... Mas juro, criança: tenho tentado melhorar e ajudar. Parto inicialmente tentando melhorar a mim mesmo. Muita gente de bem deixou essa dica de tempos em tempos pelo mundo. Na medida do possível: tento me esforçar por colaborar, dar minha ajuda no todo. Saberás no tempo que será teu agir da melhor forma, melhor que seu pai e os que vivem com ele - estou certo desde hoje quanto a isso. 

Querida criança, quando decidires vir até nós nesse planeta ainda tão violento, com tantas pessoas morrendo sob o silêncio dos que têm "voz", sob as punhaladas e tiros dos que têm poder: venha forte de espírito! Ninguém enfraquece um corpo e uma mente quando se carrega um espírito forte! Saiba disso e tenha por conselho mais importante de teu pai! Não espere, ademais, muito das pessoas, ou do mundo, ou dos representantes da fé e do poder! Venha sem muitas expectativas, pois pode ser que não te seja fácil teu tempo tal como ainda não é o de seu pai. Mas nunca, nunca deixe que te desanimem da força e honra de tentar!

Espero muito que em teus dias as pessoas se amem mais. Sim, independente da cor da pele, da riqueza adquirida em matéria, do gênero pelo qual se denominam e amam, da origem de onde vieram ou de onde nasceram seus ancestrais... Sim, criança: matam ainda hoje pessoas por questões étnicas, de dinheiro, de gênero e de opinião avessa, sabe...? Mais que isso: poucos ficam comovidos para além do que seletivamente colocam na televisão. Torço para que tua geração seja mais humana e muito mais esperta, criança.

Ademais, de fato: o mundo de teu pai é mesmo cruel e inabitável para você! Você não mereceria isso. Criança nenhuma merece o que temos hoje, mas algumas dão-se ao azar de nascer já hoje... Não sei se os tempos de teu pai são piores que antes, mas espero mesmo que teu momento, tua jornada, seja muito, muito melhor.

Caberá a mim e aos contemporâneos de teu pai fazer algo. Reze por mim, pois juro estar tentando! Precisamos todos nós aqui de muita ação e muito aprendizado, urgentemente. E, por favor: não chore, criança! Rezo para que o Deus que há faça mais por ti do que tem feito em nós (ou por nós)!

Abraços e beijos do teu futuro pai.

Que teu futuro seja imensamente lindo assim como, desde o hoje, é meu amor por ti!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Expiração final

Nascemos! Logo que nos damos conta do mundo, surge uma inspiração profunda. É o ato de respirar! Em seguida, nos vem o choro. Aprendemos desde cedo, desde o ápice do instante derradeiro do momento mais relevante da vida que é o parto, que há o pranto! Respirar toma formas de um impulso ao choro, um fôlego tomado para chorar. Nascemos agindo assim. 

Parto... Partir... Sim! Ser extraído de dentro do corpo quente e amoroso da mãe. Ser trazido ao mundo sem qualquer direito de opinião! Sim, há mães que nada têm de amorosas, mas aberrações há em todas as espécies de seres, não? O conforto da vida intra-uterina nos é retirado. O útero materno cansa-se de nós? Julga ele que estamos aptos ao mundo? Aparentemente sim, afinal irrita-se e contrai todas as suas fibras para, então: nos expulsar. Isso é nascer!

Nascidos, choramos após termos aprendido a inspirar. Expirar é fácil. Chorar também logo que aprendemos a acumular o fôlego necessário! Desgostosos, precisamos de algo quente que tente reproduzir o calor humano materno. Os gritos de dor da mãe nos comovem, acredito. Talvez seja nosso choro inicial uma forma de gritar, pedindo: "Pare! Larguem minha mãe!". Sabe-se lá o que pensamos enquanto recém nascidos que fomos...

Eis então que vamos crescendo. Desde cedo aprendemos as dores da vida. À fome? Choramos! Às dores? Choramos! Adoecidos? Choramos! É um reflexo humano chorar, quiçá... Porém, vamos aos poucos sendo traídos. As pessoas que amamos passam a nos reprimir o choro. "Choram demais os bebês", dizem alguns... E os pais, cansados, querendo dormir, calam a boca do diminuto humano no berço com um bico. Nesse momento, aprendemos que somos enganados até pelas pessoas que mais amamos! Daquele bico insosso, apenas servem-se para nos calar. Sim, nos calamos! 

Aprendemos então, desde tenra idade, que chorar é errado e incomoda os demais! Aprendemos que os fortes não choram! Ótima estratégia de convencer as pessoas ao redor de que não chorem nunca, não? Criamos no imaginário delas que: quando não se chora, se é um forte. Decerto, quem quer ser tido por fraco? Não é mesmo? Então: paramos de chorar! Calamos o pranto.

A vida vai passando. As decepções se acumulam. As dúvidas e medos agigantam-se e todos nós nos deparamos com uma vontade de chorar enorme um dia. Surge o dilema: chorar? Quem serei eu após permitir o pranto? Alguém estará vendo? O que pensarão de mim... Muitos tentam, mas alguns não conseguem conter as lágrimas e calar o pranto nessa hora. Corremos para o quarto escuro. Lá estaremos livres...

Deitados, buscamos o travesseiro. Viramo-nos de lado e fletimos ao máximo nosso corpo - quase a ponto de abraçar as próprias pernas. A escuridão, o corpo encolhido, o calor da cama, o silêncio... Já vivemos isso! Tentamos ali retratar o útero materno novamente. Por vezes, o relógio à cabeceira faz sons periódicos como que retratando as batidas do coração mãe. Eis o cenário perfeito sonhado desde a primeira inspiração no mundo! E tomamos a certeza então de que viver é sofrível. Porém, enfrentamos o dilema: chorar é proibido? Assim disseram e desde então nos percebemos perdidos. Fomos sempre obrigados a calar a nós mesmos diante de nossos sentimentos à frente desse mundo torpe... 

Assim, passando dia após dia calando pranto após pranto, vamos nos vendo mais e mais velhos. Os cabelos não mais se encontram na cabeça. Voltamos a ser frágeis. Mal sabemos andar... Temos de aprender tantas coisas - e reaprender outras. Precisamos da ajuda das pessoas! Não somos mais fortes - mesmo nunca tendo chorado! Entendemos que aquela história de chorar e ser fraco era mentira e calamos o choro em vão. 

E, numa sonata que vai acabando ao reduzir dos sons, a vida vai encerrando-se. Os dias vão passando um a um numa despedida insólita na qual, ao mesmo tempo, queremos que se nos chegue de pronto a morte, todavia ainda querendo viver mais... Somos indecisos! Quem dera fôssemos fortes de novo... Quem pediu que nos retirassem do útero materno? Nada disso teria iniciado. 

Então, no entardecer da vida, o sol se pondo para nós no horizonte enevoado da vida, deixa-nos a sós diante do momento derradeiro e obscuro da morte. Ao passo que, quando nos apresentaram a vida, demos uma inspiração profunda para então chorar, surge ao término da vida o desfalecimento das forças e, logo em seguida: damos nossa expiração final. Feito isso, encerra-se o ciclo do viver - contudo, não nos é dada a chance de chorar após expirar como nos foi dada quando inspiramos pela primeira vez...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Um dia


É fato que fico feito louco às vezes!
Há momentos de se entregar à loucura para quem pretende ser são, um dia.
Vivemos todos doentes dos olhos e dos corações, percebem ou não?
Nesse mundo repleto de mágoas, de passado torpe banhado a sangue,tudo é vão!
Vejo que todos nós temos compartilhado lágrimas e isso nos consome a alegria...
Mesmo que não percebamos, essa chaga aberta deixa dentro de nós uma dor fugidia.
Por mais que tentemos obscurecer os medos e aflições, eles voltam à tona, um dia.
Sei bem que doses de loucura precisam ser dosadas, entretanto!
Afinal, ser louco a todo momento pode trazer transtornos e pranto.
Mas é preciso sair de dentro de nós, vez ou outra, um lampejo de insanidade, não?
Quer seja um grito abafado no travesseiro, ou o ato de jogar um copo no chão...
Surgem lágrimas teimosas que escondemos, afinal: quem se importa nesse mundo cão?
Hoje uma criança morre enquanto brincava de querer ser gente grande e livre.
Ontem morreram tantas outras e infelizmente não foi um pesadelo que tive.
É a realidade do mundo mostrar-nos o quanto somos feras sem controle algum!
Se Deus foi quem criou o homem, penso: equivocou-se ou não há Deus, nenhum.
Se Ele existe, espero que seja responsável e tome melhores atitudes sobre nós!
Afinal, pai que traz filho ao mundo, mas o abandona ao sofrimento, não é pai, é algoz.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

(homenagem aos que sofrem e morrem, migrando de um lugar a outro do planeta, na busca da felicidade)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ainda escravos

O povo brasileiro, sonhando com a redenção, 
Sonha trazer para si um futuro nas mãos...
Chegou a pensar ter superado os tempos de tensão,
Mas refrescou sua alma em açudes vãos.

Ainda preso no tronco, vê o senhor extrair seu pranto.
Nas chibatadas do tempo, perdeu o couro no chicote.
Antes já chorou mais; hoje cai apenas pelo canto
Uma última lágrima que chegará ao chão, com sorte.

Cansado como o preto velho sábio, de bengala,
Fumando cachimbo e aproveitando seus dias, liberto,
Vê dentro de si a esperança, morrendo, que cala,
Olha o futuro sem ver seus rebentos livres, incerto.

A luz do amanhã que acreditou, por ora lhe cega.
Deixaram a névoa do engano ressurgir, sorrateira.
Ao netinho, apavorado, ainda escravo, ele nega
Que segue de novo o povo sem eira nem beira.

O caboclo, matuto cansado, vê seu senhor passar,
Ileso, com chicote nas mãos, babando de alegria.
Entendeu agora ter optado cedo demais por se calar
E que ficará aos seus rebentos sonhar à luz do dia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


Observação: o povo é retratado a partir de suas origens negras, povo que tanto sofreu, sonhando coma liberdade, a luz de um novo amanhã. A sensação de esperança de um dia ver as desigualdades seculares no país são novamente escassas no tempo atual. Pensou-se por um momento que poderíamos estar ficando livre dos "senhores", mas não. Eles ressurgem sempre enquanto nós, seguimos escravos com outrora éramos - ou nunca de fato deixamos de ser.