Nascemos! Logo que nos damos conta do mundo, surge uma inspiração profunda. É o ato de respirar! Em seguida, nos vem o choro. Aprendemos desde cedo, desde o ápice do instante derradeiro do momento mais relevante da vida que é o parto, que há o pranto! Respirar toma formas de um impulso ao choro, um fôlego tomado para chorar. Nascemos agindo assim.
Parto... Partir... Sim! Ser extraído de dentro do corpo quente e amoroso da mãe. Ser trazido ao mundo sem qualquer direito de opinião! Sim, há mães que nada têm de amorosas, mas aberrações há em todas as espécies de seres, não? O conforto da vida intra-uterina nos é retirado. O útero materno cansa-se de nós? Julga ele que estamos aptos ao mundo? Aparentemente sim, afinal irrita-se e contrai todas as suas fibras para, então: nos expulsar. Isso é nascer!
Nascidos, choramos após termos aprendido a inspirar. Expirar é fácil. Chorar também logo que aprendemos a acumular o fôlego necessário! Desgostosos, precisamos de algo quente que tente reproduzir o calor humano materno. Os gritos de dor da mãe nos comovem, acredito. Talvez seja nosso choro inicial uma forma de gritar, pedindo: "Pare! Larguem minha mãe!". Sabe-se lá o que pensamos enquanto recém nascidos que fomos...
Eis então que vamos crescendo. Desde cedo aprendemos as dores da vida. À fome? Choramos! Às dores? Choramos! Adoecidos? Choramos! É um reflexo humano chorar, quiçá... Porém, vamos aos poucos sendo traídos. As pessoas que amamos passam a nos reprimir o choro. "Choram demais os bebês", dizem alguns... E os pais, cansados, querendo dormir, calam a boca do diminuto humano no berço com um bico. Nesse momento, aprendemos que somos enganados até pelas pessoas que mais amamos! Daquele bico insosso, apenas servem-se para nos calar. Sim, nos calamos!
Aprendemos então, desde tenra idade, que chorar é errado e incomoda os demais! Aprendemos que os fortes não choram! Ótima estratégia de convencer as pessoas ao redor de que não chorem nunca, não? Criamos no imaginário delas que: quando não se chora, se é um forte. Decerto, quem quer ser tido por fraco? Não é mesmo? Então: paramos de chorar! Calamos o pranto.
A vida vai passando. As decepções se acumulam. As dúvidas e medos agigantam-se e todos nós nos deparamos com uma vontade de chorar enorme um dia. Surge o dilema: chorar? Quem serei eu após permitir o pranto? Alguém estará vendo? O que pensarão de mim... Muitos tentam, mas alguns não conseguem conter as lágrimas e calar o pranto nessa hora. Corremos para o quarto escuro. Lá estaremos livres...
Deitados, buscamos o travesseiro. Viramo-nos de lado e fletimos ao máximo nosso corpo - quase a ponto de abraçar as próprias pernas. A escuridão, o corpo encolhido, o calor da cama, o silêncio... Já vivemos isso! Tentamos ali retratar o útero materno novamente. Por vezes, o relógio à cabeceira faz sons periódicos como que retratando as batidas do coração mãe. Eis o cenário perfeito sonhado desde a primeira inspiração no mundo! E tomamos a certeza então de que viver é sofrível. Porém, enfrentamos o dilema: chorar é proibido? Assim disseram e desde então nos percebemos perdidos. Fomos sempre obrigados a calar a nós mesmos diante de nossos sentimentos à frente desse mundo torpe...
Assim, passando dia após dia calando pranto após pranto, vamos nos vendo mais e mais velhos. Os cabelos não mais se encontram na cabeça. Voltamos a ser frágeis. Mal sabemos andar... Temos de aprender tantas coisas - e reaprender outras. Precisamos da ajuda das pessoas! Não somos mais fortes - mesmo nunca tendo chorado! Entendemos que aquela história de chorar e ser fraco era mentira e calamos o choro em vão.
E, numa sonata que vai acabando ao reduzir dos sons, a vida vai encerrando-se. Os dias vão passando um a um numa despedida insólita na qual, ao mesmo tempo, queremos que se nos chegue de pronto a morte, todavia ainda querendo viver mais... Somos indecisos! Quem dera fôssemos fortes de novo... Quem pediu que nos retirassem do útero materno? Nada disso teria iniciado.
Então, no entardecer da vida, o sol se pondo para nós no horizonte enevoado da vida, deixa-nos a sós diante do momento derradeiro e obscuro da morte. Ao passo que, quando nos apresentaram a vida, demos uma inspiração profunda para então chorar, surge ao término da vida o desfalecimento das forças e, logo em seguida: damos nossa expiração final. Feito isso, encerra-se o ciclo do viver - contudo, não nos é dada a chance de chorar após expirar como nos foi dada quando inspiramos pela primeira vez...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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