segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ao compadre amigo meu

Que tempos são esses em que as pessoas mais buscam conforto do que respostas? Paro. Indago outra vez! Que tempos são esses em que as pessoas buscam mais respostas confortáveis do que a verdade pura? Sim, confesso, tenho observado pasmo o tempo em que vivo. Todo vivente hoje sabe de si e do mundo um barranco alto de coisas empilhadas como verdades incontestáveis, sabe? Mas ninguém quer saber de subir em cima de si e de seu monte de tralhas para olhar as tais verdades, entende? Se sobe pra testar firmeza, cai de lá e machuca por inteiro. Vira farrapo no chão. Cai das verdades esfarrapadas que achou firmes, sólidas.... 

Verdade pura é caminho, é plana, vai indo pela terra; ou plana leve e livre se vai pelo ar. Não sobe. Não é de hierarquias de alturas. Sabe? Não há barranco ou monte que se faça de verdades. Há apenas um atoleiro de mentiras ou azedumes de barrancos dispersos em verdades compradas a preço barato ou dadas.

Sabe? Reforço: sei de mim quase que nada. Observo tudo quanto há e vejo que, naquilo tudo, transparece um tanto de mim que diverge do eu que me faço, fingindo ser pra todos (e pra eu mesmo, sabe?)... Entende? Digo bonito agora: sei que é mais fácil reforçar que o mundo é ruim, mas difícil mesmo, de dar dor nos calos dos pés e dos olhos: é ver que o mundo é todos nós! E isso agora? Ora, digo reforçando: nós estamos nele. Nós somos o mundo. Sabe?

Entendo que a vida vai sendo pontuada aos poucos por verdades. Verdades semeiam-se, sabe? Dadas aos poucos, de espaço em espaço... A terra, é certo, precisa estar fofa pra saber dar cabo de crescer a verdade. Quem as joga pelas terras? Não sei. Quem crê em Deus há de lhe dar medidas do cultivo, do plantio... Mas sei que as verdades vão se dando como pegadas na terra, pausadas, repetidas, aos poucos, uma a uma. Mostrando um caminho plano e amplo, sabe? Entende? Caminho que não cabe no horizonte. Desconfio que estou certo, mas não deixo pegada no chão quando digo algo... 

Das verdades da vida, há alguém que norteia, é certo. Sei lá que dá cabo disso no mundo, mas sei que: de tão ruim o homem é, tão dura é a vida, era pra nós, um a um, termos morrido já faz tempo, vê? Cá estamos todos vendo tudo. Mas ainda criando montes e barrancos de verdades que escondem o mundo vil e cão que somos, digo: que temos. 

De tempos em tempos, surge um ou outro que grita alto na rua e mostra a voz do sábio. Mas a gente desconfia, sabe? O povo carece de ter verdades confortáveis como pensar que não adianta tentar mudar as coisas, ou ainda dizer que o mundo é ruim assim desde sempre e nada há de fazer pra isso, sabe? Quem não é dos que ouve gente assim falar, falar e falar?

Quem nada tem a acrescentar é o que muito fala e toma poder nas palavras, sabe? Digo e repito: tem poder demais aquele que fala também demais e tenta acrescentar verdade demais ao mundo. Eita, quase que desfiz a frase de antes, mas o amigo entende, decerto. O amigo haverá de entender: o que tem poder e o que é podre andam, às tantas, de-lado-a-lado. Sabe? 

É verdade aquilo que disse o meu amigo tolo: "vi na televisão um bocado de verdades que nem sabia...". Mas, pobre coitado, nem sabe de televisão, nem sabe de verdade. Nem sabe, é verdade, de nada... Afinal, quem muito sabe de nós, pouco quer trazer de verdade pra nós, não cabe isso na tua cabeça? Se homem poderoso quisesse passar verdade pra nós que age de povo, nada de tantas desavença e disparate havia já hoje nos rincões desse mundo sem fim, tão sofrido. 

Ah, amigo meu, esperto seja, hoje e sempre, senão te tiram do ciso e vão você e sua história dormir no sereno, sabe? Digo mais: se acredita demais em quem te paga os contos de salário, há de chegar o dia em que nem salário e nem quem te paga você terá mais por perto. Viste? Veja.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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