- ''Quero morrer. Deixem-me morrer...!''. Foi a última frase que ele disse antes de fechar os olhos para sempre ao pular daquele alto edifício onde morava. Por dias e dias, quase sem fim, ficou esperando por aquele instante. Queria abster-se da vida, desistir, partir - chamem do que quiserem; ele lutou, insistiu até onde conseguiu, mas deixou-se vencer pela morte.
Os mais próximos não conseguiam acreditar. Ele era um jovem homem com muitas expectativas para a vida depositadas por sobre ele. Mesmo assim, nada daquilo lhe bastou. A morte foi a solução? Foi o que ele quis e fez; isso posso dizer.
Quem sabe agora ele esteja em paz, enfim? Nunca saberemos ou, com sorte, se algo existir para além da vida que vivemos, poderemos nos reencontraremos um dia. Mas só ficou como lembrança latente aqueles últimos dizeres: ''Quero morrer. Deixem-me morrer...!''.
O desespero consome as pessoas mais do que podemos estimar. Ele sofria. Vivia. Levava a vida. Ma sofria. Chorava diariamente, embora quase todos fingissem não perceber. Ele vivia sozinho todos os dias. Poucas vezes conversava com alguém nos seus últimos tempos de vida. A solidão é algo macabro para muitos... Para ele, o era.
Deixou-se dominar pelos medos, angústias, desespero... Ah, o desespero. Ah, a falta de esperanças. Um homem sem esperanças é um homem morto. Daí, me pergunto: ele já não estava morto quando finalmente decidiu morrer? Pois sim, ele não tinha mais esperanças em nada, em ninguém.
É necessário cultivar a esperança. Cultivar sonhos e, com sorte, alcançar alguns deles. Isso gera energia para se continuar a caminhada. Ele foi acumulando decepções ao longo de anos sem conseguir conquistar coisas que queria. Perdeu a mulher que tanto amou. A perdeu por erros próprios dele, por duas vezes. Perdeu o caminho na profissão que queria seguir e perdeu forças para tentar se reerguer e tentar de novo. Perdeu contato afetivo adequado com familiares e amigos. Criou muros de solidão e guardou dentro do cômodo escuro que criara suas mágoas, decepções e medos.
Dentro dos muros erguidos por ele, foi ficando sem luz, sem ar, sem qualquer sombra de esperança. A solidão corroeu seus miolos, seus sonhos, suas expectativas para si e para o mundo. Ele só queria ter sido alguém que fosse bom. Queria ter ajudado o mundo ao seu redor diminuindo os sofrimentos dos outros. Mas estava amarrado aos seus medos, criando incapacidade de agir por isso. Não conseguiu ser o personagem de mudanças que sempre sonhou que poderia ser.
Não mudou nem a si mesmo. Não mudou nada do que pretendia. Não alcançou os sonhos que lhe motivavam. Decepcionou-se diversas vezes e cansou-se de tudo. Cair do alto daquele prédio foi a solução que ele criou para que, enfim, ele mudasse sua vida de rumo. E encontrou-se com a morte. Quiçá agora esteja em paz? Oro por ele. É o que posso fazer - mesmo não acreditando em muitas coisas.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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