quarta-feira, 27 de maio de 2015

Cumpriu sua sentença

Viver é estar dia após dia em decadência. Decadência essa que não cessa. Por mais que eu abra a porta e deixe de espreitar a alegria por trás de uma simples fresta, a tristeza espreita-me na retaguarda pronta para atirar-se por sobre mim e retirar tudo aquilo que me resta. Eis que a morte surge nesse dia! Afinal, a morte urge. Viver é nada, já disseram...

Viver é acabar-se ao longo das horas. É destrinchar os órgãos vitais como quem luta por sobreviver apesar de saber-se futuro defunto. Decerto, somos todos, sim, "cadáveres adiados" conforme diria Pessoa. Mas o que de mais belo há para além dessa realidade fria? Que viver é também a arte de entreter-se, embora isso seja enganar-se, como quem no âmago do próprio ser convence a si mesmo de que não morrerá e tudo passa a ser tido por eterno. O sonho de deixar marcas pelo mundo. O sonho de nunca morrer. O sonho de ser sempre jovem tal qual Peter Pan. O sonho de haver uma porta que se abre após o último fechar dos olhos com o suspiro derradeiro da morte. Decerto, sonhar em nunca morrer e justificar a vida que existe hoje é o que há para ser feito, afinal por qual motivos haveríamos de pensar em céu e inferno?

Eis que dia após dia consumimos nossas células e nossas energias esvaem-se como que gota a gota. Na decadência do ser que somos, nessas sociedades que habitamos fadadas à derrocada, competimos conosco próprios em relação ao ontem tentando provar para nós mesmos que a decadência inefável está ficando para trás, sendo esquecida ou até mesmo vencida, deixada sobreposta e derrotada por nosso progresso diário, fruto de nossos esforços de sobrevivência. Triste e pueril constatação é a nossa quando pensamos estar enganando a morte, lutando com tanta ênfase para estarmos vivos... E o que seria então o morrer? O cumprir de uma sentença, fato é. Já diria João Grilo na obra célebre de Suassuna: "cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre".

Viver é estar constantemente em decadência e, paralelo a isso, em luta pela sobrevivência. Viver é estar dia após dia mais próximo da morte, futuro certo - triste, mas inegável fato. Viver é estar dia após dia perdendo coisas e pessoas na estrada incerta e inconstante do existir. Viver é tentar entender o que há ao redor, sempre, até que os olhos, já tremendamente cansados de olhar, acompanhando o corpo carcomido pelos anos, percam-se no horizonte que jaz em escuridão enquanto entregam-se ao que há de vir para além do último suspiro.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segue esse texto como uma tentativa de reverenciar a figura e à todas as contribuições trazidas até nossa cultura por Antônio Abujamra (falecido em 28 de abril de 2015)

Grito da alma

Passei uma vida inteira calado, por mim esquecido...
Calei minha boca enquanto gritava a minha alma.
O grito que ecoava-me de dentro não foi ouvido...
Ouço-o agora, mas não há remédio que me traga calma.

Quem diria que seria eu um alguém assim?
Antes, tão sorridente ao olhar de todos, eu agradava.
Hoje, de tanto calar-me, ensimesmado, em mim
Soa o tom de desesperança que eu já suspeitava.

As pessoas não nos querem bem, decerto!
Querem apenas que não as incomode nossa tristeza!
É triste e grosseiro afirmar isso como certo, 
Mas foi o que concluí em noites acordado, sob luz acesa.

Queremos a harmonia dos padrões de beleza no mundo!
Aquilo que é triste, destoa dessa mentalidade vigente.
Não há espaço a quem tenha-se por embotado, profundo...
Quem em si mesmo mergulha, faz-se ao mundo demente.

E assim, tido por louco, excêntrico, distante: sigo!
Quisera eu um dia sentir na vida ares de bem estar...
Sim, raras são as pessoas que nos queiram, de fato, consigo,
Mas saibamos todos nós, embotados: abrir portas, recomeçar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O que bate à nossa porta?

Afinal, o que importa é só o que bate à nossa porta. Foi o que conclui refletindo sentado na calçada vendo todos passando. A tristeza da miséria em nada nos comove, mas caso fiquemos miseráveis um dia, aí sim exigiremos medidas de outrem, do governo inclusive, quiçá. Claro! Desta feita, criticam-se medidas sociais. Quem critica? Todos os que dormem em sua cama confortável, após sua janta farta, prontos para despertar horas após para pegar seus carros e irem para seus empregos garantidos. Não espero mais nada do homem...

"Bolsa-isso", "bolsa-aquilo", isso é coisa para fomentar vagabundos, correto? Peço aos cidadãos que assim pensam: sejam pobres, miseráveis... Sejam descendentes de antepassados que foram escravizados, torturados, expostos às mais vis atrocidades com o objetivo de gerar lucros ao seu senhor. Após serem isso, venham me dizer sobre "bolsa-isso" ou "bolsa-aquilo" com esse habitual tom de deboche. Deixem que batam à sua porta a pobreza e a miséria ou a atrocidade do nosso passado torpe. De fato, não espero mais nada do homem...

Na calçada, tropeçamos. Olhamos para baixo - pois nossos olhos estão sempre voltados para o céu, afinal: somos tão altivos - e eis que sob os nossos pés, estava um mendigo. "Vagabundo", "bêbado" e outros nomes chegam à mente, correto? A culpa é do governo que não desaparece com essa gente - já pensaram assim num país chamado Alemanha... Vocês que assim pensam (e agem): já procuraram conversar com algum ou ajudar de fato? Sabem a história de vida desses? Se suas vidas fossem também ou regada a tragédias, ou a miséria sem fim, ou a um processo depressivo associado ao alcoolismo e uso de drogas, quiçá: vocês estariam em situação diferente? Não! Poderiam sim estar ali, bem ali na calçada sob os pés limpinhos da classe média que passa empavonada - afinal, a classe alta passa de carro e não se dá ao desfrute de caminhar por calçadas. Em sendo vocês aquele mendigo, vocês olhariam nos olhos das pessoas e diriam o que? "Obrigado, estou satisfeito" ou "por favor, me dê uns trocados para comer?". Triste pensar como o conforto endurece e seca a alma das pessoas.  Não espero mais nada das pessoas...

O mundo é cruel, mas as pessoas fazem o mundo! Erros e acertos, quem os faz e se consomem nisso, são os homens. Eis que sonegam-se impostos por todo lado. Em nosso país - esse amontoado de terra produtiva e de gente com propósitos tão diversos -, o acumulado de dívidas desse povo varonil já soma montes acima de um trilhão. Mas é esse mesmo povo devedor que, quando vê seu dinheiro ser mal empregado (ou culmine com aumento de juros, do dólar e da gasolina, claro!), toma para si o discurso da ética, dos bons costumes, visando o aplauso meritório assim como o bandido arrependido... Não! Basta! Não espero mais nada do brasileiro...

O pobre que morre na periferia, ou pelo policial mal remunerado e mal preparado, ou ainda pela bala do traficante enraivecido, não nos comove. Assumam isso! Mas causam enorme comoção mortes de um filho nosso de classe média ou outro da alta. Eis que a comoção é vomitada após isso. Mas não ligamos e nada fazemos pela comoção das mães e pais da periferia. Aparentemente, esquecemos (ou negamos!) o fato de que morrem inocentes há centenas de anos em nosso país e nada fazem (ou fizemos) por eles - quando são pobres e de periferia, que morram! Pobreza, afinal, para nossas classes média e alta, é sinônimo de preguiça, correto? Pobre que busque por si mesmo seu sucesso, não é? Cotas? Claro que não! Quase que ouço alguém indagando nesse momento em tons enraivecidos: "já fazem quase 150 anos que a escravidão acabou", ou ainda: "nossos antepassados curaram o mal que fizeram ao povo traficado para cá em tendo assinado a Lei Áurea". Após rir desse devaneio, penso: esses 150 anos conseguem superar a desgraça feita para com todo esse povo e seus descendentes? Fosse você que pensa daquela maneira um desses afrodescendentes: estaria já perdoando o mal que fizeram aos seus familiares de tão pouco tempo atrás? Negaria que as cotas são no mínimo uma tentativa de retribuição?  Não espero mais nada da mente humana...

Há poucas décadas, retirantes vinham do nordeste empoeirado - eles próprios também empoeirados - sem direito à água, sem dinheiro, quase sem roupas, tendo seus pertences sido colocados em algibeiras ou enrolados como tralhas em pedaços de pano, rumando aos grandes centros para buscar vida digna sonhada - afinal estavam esquecidos há séculos. Caso você passasse por isso, tivesse em seu sangue esse passado, em suas memórias esses rancores: defenderia que bolsa família ou outros incentivos ao fim das desigualdades tenham que acabar ou nem deveriam existir? E o sonho de casa própria? "Minha Casa Minha Vida" é coisa de gente torta, anti-ética, corrupta? Não! São tentativas - mesmo que mal geridas, mas isso é outra questão - de corrigir erros e incongruências do passado. Mas esses erros do passado que tentam corrigir não bateram à nossa porta nem esvaziaram (por centenas de anos) nossas panelas - panelas essas que antes ficavam penduradas, vazias, enquanto nossos estômagos roncavam. Hoje, panelas nossas dão-se ao desfrute de incomodar os vizinhos em "panelaços" pseudo-altruístas ou cívicos. Não, não espero mesmo mais nada do brasileiro, nem de suas mentes...

Aos goles de uma bebida qualquer, agora já na bancada de um bar, penso que a felicidade está naquele que teve a sorte de morrer cedo, quando ainda não entendia o funcionamento e as atrocidades do mundo. Encerrado o último gole daquela noite, concluí: Jesus um dia pregou que compartilhássemos, dividíssemos e que não fôssemos mesquinhos como aqueles ricos que querem levar para a tumba seu ouro. Mas entendo que, quando Jesus disse aquilo, essa coisa toda de compartilhar e ajudar os pobres, talvez Ele estivesse brincando - mas fato é que Deus brincando também devia estar quando nos criou homens tão, digamos assim , hipócritas.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 26 de maio de 2015

Lápide

Quando eu morrer, quero que eu vá rememorando Suassuna, deixando em minha lápide a seguinte frase: "Encontrou-se com o mal irremediável (...) porque tudo que é vivo, morre". Quem sou eu para pensar-me distinto de outrem e decidir por não aceitar morrer?

Todos nós, assim que nascemos, criamos uma dívida com a existência. Tal dívida, pagamos com a morte. Ambos, nascer e morrer, nos são dados gratuitamente. Do primeiro, nunca teremos oportunidade de pretender e nem mesmo nos perguntam nada sobre. Do segundo, entretanto, podemos criar aspectos pessoais nele, trazendo tal pagamento para antes da devida hora determinada... Sabe-se lá. 

Cada um paga sua dívida conforme acredite ser correto, ou aceite ser dentro de suas possibilidades, não? Entendo então quem queira pagar sua dívida antes e também quem nunca queira pagar, esperando permanecer vivo eternamente. Eu, de minha parte, quero morrer ao devido tempo da estipulada dívida, tempo esse que me foi confiado por minha existência desde o nascer. 

Vivo, aguardarei minha sentença, mas nada de trazê-la para antes de seu devido tempo. Não sou de antecipar pagamentos. Sabe-se lá qual dívida nova estaria eu criando...? Eis então que serei apenas testemunha do dia do pagamento, não, entretanto, farei de mim criador de nova dívida. Sabe-se lá como ela seria cobrada...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Você já liberou seu ódio hoje?

O título desse texto, será parte do início de seu corpo: "você já liberou seu ódio hoje?". Quem anda perguntando-se isso? Sabe-se lá... Afinal, eu sou um cara estranho. Dessa forma, em sendo estranho, dou-me o direito de fazer perguntas estranhas, decerto. Eis a minha de hoje quando olhei os noticiários e observei o comportamento humano através das ruas e mais ainda das redes sociais. Além de estranho, sou pessimista, valho-me daqui para dizer. Ainda bem que minha estranheza ainda me permite trazer algo de bom humor enquanto olho as coisas, caso contrário meu pessimismo que é bastante grande tomaria conta de mim e de meus olhos, Eu estaria de olhos ardendo ou cego caso não me deixa-se ter essa parcela de bom humor diante do mundo em que me insiro.


Vejo o mundo em total destempero e despreparo para a convivência social. Sim, isso não é novidade nem uma descoberta da minha estranheza ou de meu pessimismo. Sempre fomos seres violentos, pouco cooperativos diante da desgraça alheia e cruéis, é fato. Decerto, entendi observando: com o advento da internet e das redes sociais, com essa ultra-exposição em tempo real, vinte e quatro horas por dia, nessa corriqueira e incessante divulgação de ideias e ideais que se assemelham ou divergem do que temos por fato social, conforme conceitos de Durkheim, vejo que estamos nos atrevendo a adentrar territórios antes já percorridos. Territórios esses que já deram muito errado e muitos morreram. Sim, falo dos totalitarismos, das incapacidades de reconhecer o diferente e aceitá-lo, do radicalismo torpe e intolerante. 

Quanto ao conceito de fato social citado, em linhas gerais, eu definiria, pelo que entendo (e desculpem-me os estudiosos do assunto se me equivoco), como a inserção de "normas" em maneiras de agir, sentir e pensar que temos por socialmente aceitas e que exercem, por isso, sobre nós um poder de coerção - consciente ou inconscientemente - enquanto indivíduos sociais que somos, inevitavelmente. Aceitar a nós todos enquanto fadados ao convívio com o outro e, por isso, ter também que aceitar as diferenças, seria necessidade premente, mas ainda não aprendemos isso e, o que é ainda pior nisso tudo: estamos refinando a disseminação de intolerâncias e métodos de violências perpetuadas, sob nosso silêncio, sob nossa aceitação pacata - afinal, concordando ou simplesmente não impondo forças contrárias para frear o processos em si nos torna coniventes

Vi por diversas vezes recentemente discursos de parlamentares incitando, sim, incitando intolerâncias, violências, estupro, sim, estupro e até mesmo agressão física. Está para todos verem nas redes sociais, redes de arquivos em vídeos pela internet etc. Vi isso difundido na mídia, vomitado nos jornais sem uma ampla discussão ou alarde quanto aos discursos mediante os quais me vejo pasmo. Testemunhei, ademais, assustado, o discurso ser endossado, defendido por tantos brasileiros. Todos leram? Ouviram? Não sei. Como disse: sou estranho! Posso ter ouvido, lido e entendido tudo errado de todos os discursos, de toda aquela, para mim, incitação de intolerâncias e violências. Além disso, parlamentares, sim, parlamentares - representantes do povo e das leis que tomam ou hão de tomar rumos - com discursos agressivos contra pobres, nordestinos, menores de idade caídos mediante a "bandidagem", contra homossexuais... Também vi isso. Viram? Nem sei o que pensar.

Claro, há riscos de erros e surgimento de discursos agressivos quando qualquer conjunto de humanos reúna-se para debater qualquer tema, ainda mais quando seja polêmico, mais ainda: quando ultrapassa os limites impetrados do fato social de Durkheim em nós. Mas o que será desses discursos e dos atos de agressividade que temos a cada dia mais aflorados e vulgarizados, pluralizados? Serão mesmo assim tolerados, impunemente? Sabe-se lá o que irei eu acreditar de expectativa de mundo para os meus filhos - filhos esses que hoje nem mesmo mais penso em tê-los, pois já os amo e quero a eles o bem.

Ora, temos por normais, corriqueiras, atitudes de agressividade e violência no trânsito, na prática de esportes (vide nosso futebol), nas retratações ora mais, ora menos reais das tele-novelas... Tudo é tido por "normal". Talvez o seja. Mas assim será? Conviveremos nesse mundo que lava as mãos frente à delinquência desenfreada de todas as esferas? O cidadão comum (exposto à educação precária que temos e à violência e impunidade que habituamo-nos a conviver nessa terra aparentemente sem lei) agir com destempero, despreparo diante das adversidades e discursos contrários com agressividade e despudor, de certa forma, até me permito tentar entender... Mas aceitar parlamentares, representantes do povo dentro do Estado, sob aplausos, defenderem seus discursos de ódio e intolerância, incitando ódios? Não consigo. Não consigo. Mas, é fato: sou estranho e mal entendo das coisas...

Porém, nas mesmas redes sociais e de mídia como um todo, vi clamores de ódio quando, em mais de uma região do país, tivemos pobres sendo achincalhados, espancados, amarrados em postes após delitos, a despeito da lei vigente que naturalmente tomaria parte nos acontecidos... Aquele ladrão qualquer (não foi apenas um, mas vamos em frente), aquele, melhor dizendo, ladrão pobre qualquer (nascido e criado em meio às dificuldades das periferias, exposto às violências e injustiças diárias às populações menos favorecidas - fato que logicamente não justifica, mas entra em questão) quando roubou, teve contra ele todos clamando por "justiça" e querendo punição, prisão, violência contra o mesmo. Quiseram também condenação - mesmo que ele fosse "menor de idade". E os "maiores de idade" representantes do Estado? E os discursos de ódio? Incitam algo? Atrapalham em algo? Devemos agir de alguma forma? Em resumo: apenas devemos culpar, bradar contra e criminalizar o ladrão "comum" que, numa rua comum, roubar coisa comum - qualquer que seja? Seremos intolerantes apenas com esse fato, decerto... 

Enfim, eu já esperava. A intolerância e as "violências" não serão todas elas punidas. Afinal, os parlamentares que estão a dizer coisas, agitando bandeiras de intolerâncias, violências e radicalismos, todos eles, foram entregues à representação do povo por nossa conta, por nós próprios: o povo! Que assim seja então - ou em vão , quiçá. De tudo, apenas sei que sou mero ser estranho tentando me adequar. Concluí, algo desanimado: é mais fácil odiar que tentar entender e, com isso, mudar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier