Viver é estar dia após dia em decadência. Decadência essa que não cessa. Por mais que eu abra a porta e deixe de espreitar a alegria por trás de uma simples fresta, a tristeza espreita-me na retaguarda pronta para atirar-se por sobre mim e retirar tudo aquilo que me resta. Eis que a morte surge nesse dia! Afinal, a morte urge. Viver é nada, já disseram...
Viver é acabar-se ao longo das horas. É destrinchar os órgãos vitais como quem luta por sobreviver apesar de saber-se futuro defunto. Decerto, somos todos, sim, "cadáveres adiados" conforme diria Pessoa. Mas o que de mais belo há para além dessa realidade fria? Que viver é também a arte de entreter-se, embora isso seja enganar-se, como quem no âmago do próprio ser convence a si mesmo de que não morrerá e tudo passa a ser tido por eterno. O sonho de deixar marcas pelo mundo. O sonho de nunca morrer. O sonho de ser sempre jovem tal qual Peter Pan. O sonho de haver uma porta que se abre após o último fechar dos olhos com o suspiro derradeiro da morte. Decerto, sonhar em nunca morrer e justificar a vida que existe hoje é o que há para ser feito, afinal por qual motivos haveríamos de pensar em céu e inferno?
Eis que dia após dia consumimos nossas células e nossas energias esvaem-se como que gota a gota. Na decadência do ser que somos, nessas sociedades que habitamos fadadas à derrocada, competimos conosco próprios em relação ao ontem tentando provar para nós mesmos que a decadência inefável está ficando para trás, sendo esquecida ou até mesmo vencida, deixada sobreposta e derrotada por nosso progresso diário, fruto de nossos esforços de sobrevivência. Triste e pueril constatação é a nossa quando pensamos estar enganando a morte, lutando com tanta ênfase para estarmos vivos... E o que seria então o morrer? O cumprir de uma sentença, fato é. Já diria João Grilo na obra célebre de Suassuna: "cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre".
Viver é estar constantemente em decadência e, paralelo a isso, em luta pela sobrevivência. Viver é estar dia após dia mais próximo da morte, futuro certo - triste, mas inegável fato. Viver é estar dia após dia perdendo coisas e pessoas na estrada incerta e inconstante do existir. Viver é tentar entender o que há ao redor, sempre, até que os olhos, já tremendamente cansados de olhar, acompanhando o corpo carcomido pelos anos, percam-se no horizonte que jaz em escuridão enquanto entregam-se ao que há de vir para além do último suspiro.
Viver é estar constantemente em decadência e, paralelo a isso, em luta pela sobrevivência. Viver é estar dia após dia mais próximo da morte, futuro certo - triste, mas inegável fato. Viver é estar dia após dia perdendo coisas e pessoas na estrada incerta e inconstante do existir. Viver é tentar entender o que há ao redor, sempre, até que os olhos, já tremendamente cansados de olhar, acompanhando o corpo carcomido pelos anos, percam-se no horizonte que jaz em escuridão enquanto entregam-se ao que há de vir para além do último suspiro.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
segue esse texto como uma tentativa de reverenciar a figura e à todas as contribuições trazidas até nossa cultura por Antônio Abujamra (falecido em 28 de abril de 2015)
segue esse texto como uma tentativa de reverenciar a figura e à todas as contribuições trazidas até nossa cultura por Antônio Abujamra (falecido em 28 de abril de 2015)
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