Afinal, o que importa é só o que bate à nossa porta. Foi o que conclui refletindo sentado na calçada vendo todos passando. A tristeza da miséria em nada nos comove, mas caso fiquemos miseráveis um dia, aí sim exigiremos medidas de outrem, do governo inclusive, quiçá. Claro! Desta feita, criticam-se medidas sociais. Quem critica? Todos os que dormem em sua cama confortável, após sua janta farta, prontos para despertar horas após para pegar seus carros e irem para seus empregos garantidos. Não espero mais nada do homem...
"Bolsa-isso", "bolsa-aquilo", isso é coisa para fomentar vagabundos, correto? Peço aos cidadãos que assim pensam: sejam pobres, miseráveis... Sejam descendentes de antepassados que foram escravizados, torturados, expostos às mais vis atrocidades com o objetivo de gerar lucros ao seu senhor. Após serem isso, venham me dizer sobre "bolsa-isso" ou "bolsa-aquilo" com esse habitual tom de deboche. Deixem que batam à sua porta a pobreza e a miséria ou a atrocidade do nosso passado torpe. De fato, não espero mais nada do homem...
Na calçada, tropeçamos. Olhamos para baixo - pois nossos olhos estão sempre voltados para o céu, afinal: somos tão altivos - e eis que sob os nossos pés, estava um mendigo. "Vagabundo", "bêbado" e outros nomes chegam à mente, correto? A culpa é do governo que não desaparece com essa gente - já pensaram assim num país chamado Alemanha... Vocês que assim pensam (e agem): já procuraram conversar com algum ou ajudar de fato? Sabem a história de vida desses? Se suas vidas fossem também ou regada a tragédias, ou a miséria sem fim, ou a um processo depressivo associado ao alcoolismo e uso de drogas, quiçá: vocês estariam em situação diferente? Não! Poderiam sim estar ali, bem ali na calçada sob os pés limpinhos da classe média que passa empavonada - afinal, a classe alta passa de carro e não se dá ao desfrute de caminhar por calçadas. Em sendo vocês aquele mendigo, vocês olhariam nos olhos das pessoas e diriam o que? "Obrigado, estou satisfeito" ou "por favor, me dê uns trocados para comer?". Triste pensar como o conforto endurece e seca a alma das pessoas. Não espero mais nada das pessoas...
O mundo é cruel, mas as pessoas fazem o mundo! Erros e acertos, quem os faz e se consomem nisso, são os homens. Eis que sonegam-se impostos por todo lado. Em nosso país - esse amontoado de terra produtiva e de gente com propósitos tão diversos -, o acumulado de dívidas desse povo varonil já soma montes acima de um trilhão. Mas é esse mesmo povo devedor que, quando vê seu dinheiro ser mal empregado (ou culmine com aumento de juros, do dólar e da gasolina, claro!), toma para si o discurso da ética, dos bons costumes, visando o aplauso meritório assim como o bandido arrependido... Não! Basta! Não espero mais nada do brasileiro...
O pobre que morre na periferia, ou pelo policial mal remunerado e mal preparado, ou ainda pela bala do traficante enraivecido, não nos comove. Assumam isso! Mas causam enorme comoção mortes de um filho nosso de classe média ou outro da alta. Eis que a comoção é vomitada após isso. Mas não ligamos e nada fazemos pela comoção das mães e pais da periferia. Aparentemente, esquecemos (ou negamos!) o fato de que morrem inocentes há centenas de anos em nosso país e nada fazem (ou fizemos) por eles - quando são pobres e de periferia, que morram! Pobreza, afinal, para nossas classes média e alta, é sinônimo de preguiça, correto? Pobre que busque por si mesmo seu sucesso, não é? Cotas? Claro que não! Quase que ouço alguém indagando nesse momento em tons enraivecidos: "já fazem quase 150 anos que a escravidão acabou", ou ainda: "nossos antepassados curaram o mal que fizeram ao povo traficado para cá em tendo assinado a Lei Áurea". Após rir desse devaneio, penso: esses 150 anos conseguem superar a desgraça feita para com todo esse povo e seus descendentes? Fosse você que pensa daquela maneira um desses afrodescendentes: estaria já perdoando o mal que fizeram aos seus familiares de tão pouco tempo atrás? Negaria que as cotas são no mínimo uma tentativa de retribuição? Não espero mais nada da mente humana...
Há poucas décadas, retirantes vinham do nordeste empoeirado - eles próprios também empoeirados - sem direito à água, sem dinheiro, quase sem roupas, tendo seus pertences sido colocados em algibeiras ou enrolados como tralhas em pedaços de pano, rumando aos grandes centros para buscar vida digna sonhada - afinal estavam esquecidos há séculos. Caso você passasse por isso, tivesse em seu sangue esse passado, em suas memórias esses rancores: defenderia que bolsa família ou outros incentivos ao fim das desigualdades tenham que acabar ou nem deveriam existir? E o sonho de casa própria? "Minha Casa Minha Vida" é coisa de gente torta, anti-ética, corrupta? Não! São tentativas - mesmo que mal geridas, mas isso é outra questão - de corrigir erros e incongruências do passado. Mas esses erros do passado que tentam corrigir não bateram à nossa porta nem esvaziaram (por centenas de anos) nossas panelas - panelas essas que antes ficavam penduradas, vazias, enquanto nossos estômagos roncavam. Hoje, panelas nossas dão-se ao desfrute de incomodar os vizinhos em "panelaços" pseudo-altruístas ou cívicos. Não, não espero mesmo mais nada do brasileiro, nem de suas mentes...
Aos goles de uma bebida qualquer, agora já na bancada de um bar, penso que a felicidade está naquele que teve a sorte de morrer cedo, quando ainda não entendia o funcionamento e as atrocidades do mundo. Encerrado o último gole daquela noite, concluí: Jesus um dia pregou que compartilhássemos, dividíssemos e que não fôssemos mesquinhos como aqueles ricos que querem levar para a tumba seu ouro. Mas entendo que, quando Jesus disse aquilo, essa coisa toda de compartilhar e ajudar os pobres, talvez Ele estivesse brincando - mas fato é que Deus brincando também devia estar quando nos criou homens tão, digamos assim , hipócritas.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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