segunda-feira, 3 de abril de 2017

História de uma vida curta. História curta de uma vida.

- ''Quero morrer. Deixem-me morrer...!''. Foi a última frase que ele disse antes de fechar os olhos para sempre ao pular daquele alto edifício onde morava. Por dias e dias, quase sem fim, ficou esperando por aquele instante. Queria abster-se da vida, desistir, partir - chamem do que quiserem; ele lutou, insistiu até onde conseguiu, mas deixou-se vencer pela morte.

Os mais próximos não conseguiam acreditar. Ele era um jovem homem com muitas expectativas para a vida depositadas por sobre ele. Mesmo assim, nada daquilo lhe bastou. A morte foi a solução? Foi o que ele quis e fez; isso posso dizer. 

Quem sabe agora ele esteja em paz, enfim? Nunca saberemos ou, com sorte, se algo existir para além da vida que vivemos, poderemos nos reencontraremos um dia. Mas só ficou como lembrança latente aqueles últimos dizeres: ''Quero morrer. Deixem-me morrer...!''.

O desespero consome as pessoas mais do que podemos estimar. Ele sofria. Vivia. Levava a vida. Ma sofria. Chorava diariamente, embora quase todos fingissem não perceber. Ele vivia sozinho todos os dias. Poucas vezes conversava com alguém nos seus últimos tempos de vida. A solidão é algo macabro para muitos... Para ele, o era. 

Deixou-se dominar pelos medos, angústias, desespero... Ah, o desespero. Ah, a falta de esperanças. Um homem sem esperanças é um homem morto. Daí, me pergunto: ele já não estava morto quando finalmente decidiu morrer? Pois sim, ele não tinha mais esperanças em nada, em ninguém. 

É necessário cultivar a esperança. Cultivar sonhos e, com sorte, alcançar alguns deles. Isso gera energia para se continuar a caminhada. Ele foi acumulando decepções ao longo de anos sem conseguir conquistar coisas que queria. Perdeu a mulher que tanto amou. A perdeu por erros próprios dele, por duas vezes. Perdeu o caminho na profissão que queria seguir e perdeu forças para tentar se reerguer e tentar de novo. Perdeu contato afetivo adequado com familiares e amigos. Criou muros de solidão e guardou dentro do cômodo escuro que criara suas mágoas, decepções e medos.

Dentro dos muros erguidos por ele, foi ficando sem luz, sem ar, sem qualquer sombra de esperança. A solidão corroeu seus miolos, seus sonhos, suas expectativas para si e para o mundo. Ele só queria ter sido alguém que fosse bom. Queria ter ajudado o mundo ao seu redor diminuindo os sofrimentos dos outros. Mas estava amarrado aos seus medos, criando incapacidade de agir por isso. Não conseguiu ser o personagem de mudanças que sempre sonhou que poderia ser.

Não mudou nem a si mesmo. Não mudou nada do que pretendia. Não alcançou os sonhos que lhe motivavam. Decepcionou-se diversas vezes e cansou-se de tudo. Cair do alto daquele prédio foi a solução que ele criou para que, enfim, ele mudasse sua vida de rumo. E encontrou-se com a morte. Quiçá agora esteja em paz? Oro por ele. É o que posso fazer - mesmo não acreditando em muitas coisas.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 2 de abril de 2017

Aquém

Levaram-me tudo quanto eu tinha.
Não foram minhas roupas, ou dinheiro,
nem muito menos a casa que era minha.
Levaram minhas esperanças por inteiro.

Sem esperanças na vida, nas pessoas, em tudo,
as coisas não correm bem e o coração acelera...
A voz tenta sair, tento interagir, mas estou mudo.
E a ausência de esperanças torna-se querela.

Vou me afundando em inércia, desalento, calado.
Fico olhando os outros e a inveja me vem.
Pego-me sonhando ser outra pessoa. Vejo-me um fardo.
Não consigo ser nada além disso. De mim, sou aquém.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O óbito e o médico

Era uma tarde qualquer num hospital comum. Como sempre, filas cheias de pacientes inquietos por tantas mazelas, quer fossem orgânicas ou psicológicas. Todos ali tinham sua devida pressa! Cada um deles, entretanto, exigia uma parcela específica de atenção da equipe daquele hospital. Porém, ao meio da tarde, mal esperavam por aquilo, todos comoveram-se com algo. Uma criança, tão pequena e comum aos olhos de todos, mas aos olhos dos pais que a traziam representava o ''tudo'' que valia em seu mundo. A criança em questão, já tão sofrida devido seu tratamento contra o infeliz câncer que a tirava daqueles pais, estava ali, diante de todos, já sem respirar. Sim, segundo os pais ela não respirava já havia alguns minutos quando, ao perceberem  o insucesso de seus cuidados iniciais, procuraram a carona mais ágil e ali puderam enfim chegar. Chegariam em tempo? Não saberiam responder, mas correram o quanto puderam atrás da vida que perdia-se à frente deles...

O médico, de pronto, acompanhado de sua fiel assistente de enfermagem, moveu-se para acudir a cena abandonando (algo insatisfeitos) os pais de outra criança que, naquele mesmo instante,  ainda estava sendo atendida devido seu quadro de amigdalite que, aparentemente, era a maior preocupação dos seus pais. O médico os abandonou devido toda a gravidade e urgência requeridas pela situação ao lado. Mas para os pais que ali ficaram ''abandonados'' no pequeno consultório, não fora tão simples perceber e entender aquilo. Aquele abandono sem o fechamento da consulta? Sim, era um atraso no encerramento daquele atendimento! Alguém deveria ser responsabilizado, pensou o pai, mas calou-se ao ver-se já distante do médico!

Médico e enfermeiras, todos os da equipe, na tentativa de socorrer de alguma forma ajudando naquele cenário desolador, moveram-se cada um definindo-se por suas competências, assumindo respectivas funções na tentativa do socorro. Ao primeiro contato, a criança não respirava, era fato! Sim, lá estava estampado na parede o protocolo a ser seguido para os casos como o que viam ali, colocando mais aquele paciente, aquela criança, como um receptor das manobras devidas, na conduta do protocolo referido adequado ao caso... Todos o sabiam de cor! Procederam a todos os cuidados, assim sendo! Sudoréticos, trêmulos, lá estavam todos! Por mais que já tivessem passado por situação semelhante diversas vezes, lá estavam eles ansiosos e temerosos por mais outra vez... Os ruídos humanos advindos dos afazeres do protocolo estabelecido ali não calavam o silêncio emocional da sala de urgências.

A criança não reagia! Todo um estresse firmava-se num cenário inconsolável já aparentemente definido por Deus. Os pais? Desesperados! Outros tantos em meio à cena brotavam pelos corredores tentando os confortar aos seus modos. O médico, apenas de soslaio por estar focado na cena inicial, olhava-os desesperado por não os poder socorrer naquele momento, nem os confortar... A cena era triste! Ele já sabia seu desfecho, era fato! O que esperar? 

A criança não voltou aos braços daqueles pais! Como seguir? Como dizê-lo a eles, tal fato, tamanha dor? Para o sistema, ali havia apenas mais uma ficha, um número sequencial em meio a tantos, um prontuário qualquer que necessitou de um protocolo específico com sucesso total, parcial ou inexistente. Para aqueles pais, todavia, ali estava entregue aos braços de Deus o que lhes era tudo, mas lhes havia sido retirado. Para aquela enfermeira, já tão emocionada e em prantos naquele instante, ali morria uma linda criança com todo um futuro pela frente! Para aquele médico, por sua vez, ali estava "o tudo" daqueles pais, um querido paciente que por algum motivo de Deus fora-lhe retirado sem o sucesso das manobras por ele realizadas e também ali estava algo de um filho seu que perdeu-se! 

Em meio às lágrimas dos pais, ele os abraçou afastando-se da maca, da criança! Explicou dos procedimentos que ali ocorreram, mesmo sabendo que para eles (e até mesmo para ele!) tudo era parte de algo inexplicável. Presenciar a morte? Apesar dos esforços por evitar a cena derradeira e temida que fez-se por concreta ao final de tudo, era humanamente muito triste, um tanto quanto revoltante! E daquilo, ao final de tudo, viu-se: foi-se embora outra alma pura do mundo! Sim, era ali o retrato de uma cena que pintava a morte e todo seu contexto de dor. Sim, o contexto inóspito, fato incontestável, revoltante e imutável do morrer, fato esse ali vislumbrado e definido na realidade que havia por sobre uma maca fria.

Após aquela despedida, entregue devidamente o nefasto atestado do óbito daquela criança às mãos dos pais, apesar dos olhos ainda estáticos deles, o médico enfim voltou-se ao que havia parado lembrando-se dos pais da outra criança com amigdalite que o aguardavam insatisfeitos. Para eles era demora eterna tudo aquilo enquanto aguardavam naquele consultório que ladeava a sala de emergência. Apesar disso, antes de adentrar naquele consultório novamente, sentiu ser necessário passar por algum outro local, mais afastado. O banheiro, sim, o banheiro! Precisou desviar-se por instantes dos olhos atentos daqueles pais sentados ao lado, no consultório, que lhes espreitavam os passos, ansiosos por uma posição para seu caso e, enfim, poderem ir para casa. 

Esquecendo-se um pouco de tudo, de suas responsabilidades já em trânsito novamente apesar do que acabara de ocorrer, o médico refez-se em meio ao silêncio daquele banheiro! Entrou, respirou... Buscou na alma a calma necessária almejando a paz que queria ter - e precisava ter!. De sopetão, despretensiosamente junto ao silêncio que cabia aquele recinto, a lágrima pingou no jaleco que até então permanecia incólume, embora recheado de dores. A dor ali contida passou a ser seu pior parasita, consumindo todo resquício de paz que poderia haver, deixando eternizada na memória e no sentimento aquela despedida inexplicável aos olhos da experiência humana comum e à perplexidade daquele profissional que desde aquele instante nunca mais seria o mesmo, embora já tenha sofrido assim tantas outras vezes.

Feito isso, secada a lágrima, alguns instantes passaram-se. Retomou silencioso à sala do consultório. Reviu o caso, elaborou em definitivo seu diagnóstico e prescreveu. O carimbo fora apertado quase que sem força para corar em tinta o papel do receituário. Deu as devidas orientações. Trocou mais algumas palavras com os pais e esclareceu suas dúvidas. Saíram eles dali com atestados e receita em mãos, acompanhados de seu filho já pedindo para chegar em casa logo. Os pais, agora mais felizes, desde aquele instante apenas teriam de aguardar o sucesso prometido pelas medicações prescritas segundo informes daquele médico que, aparentemente, eles nem gostaram tanto... O médico? Como de habitual, secadas as lágrimas do corpo, seguiu obviamente com lágrimas ainda na alma. Porém, quem se importava? Lá estava ele novamente com caneta em punho e estetoscópio posicionado para todos os demais atendimentos daquele e dos seus próximos dias.  

Chegando em casa, soltando à porta todo o peso do trabalho com um suspiro invisível aos olhos comuns, pensou consigo enquanto rumava à cozinha para beber um copo de água: vá em paz criança que partiu! Pensou novamente as últimas horas, seguiu para se arrumar para dormir, afinal, o dia seguinte já estava chegando com suas devidas obrigações. Naquela mesma noite, tantos outros desejaram suas respectivas bençãos ao espírito da criança que naquela tarde havia deixado o mundo... 

Ao raiar do dia seguinte, lá estavam todos novamente na lida. As filas novamente cheias assim como as cabeças e as memórias com seus devidos sentimentos acumulados. Mazelas e dores ainda vívidas? Sim, mas a quem isso importava? As roupas brancas (tal qual papéis em branco) guardavam em si uma imensidão de sentimentos e pensamentos à espera do momento oportuno (nunca alcançado) de revelarem-se. Porém, aos olhos despretensiosos de todos, estavam meramente ''brancas'', vazias. Afinal, esperam-se do médico condutas, acertos, obrigações, não sentimentos! Correto? Era o que ele sabia - e temia!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Eis que mais um dia acaba... Outro começa!

''É de manhã. É de madrugada!''. Não é música de Caetano Veloso, mas sim uma realidade agora enquanto escrevo. É dia 24 de dezembro. É dezembro! É o ano de 2015 ainda. E 2016 quase que já nasce. É hoje, sim, mais um dia em que um ano está novamente quase acabando!

Outro ano de vida... Outro ano a menos da vida! Coisas de ''copo meio cheio ou meio vazio'', entende? Ano de aprendizados. Ano de derrotas. Ano de ganhos materiais e imateriais, etéreos. Ano de coisas que passaram e deixaram marcas. Ano de coisas que apenas passaram e nem lembradas mais são. Ano de coisas que passaram e são parte de nós hoje. 

Ano após ano, eis que o milagre de estar vivo vai se perpetuando; até quando? Resta a dúvida, sempre. Dúvida essa que, de alguma forma, Jesus, em sua passagem na Terra, quis deixar como motivação. Sim, motivação! Não saber se hoje é meu último dia deveria ser motivação suficiente para que eu vivesse esse meu dia como podendo ser o último. Ah, se fosse assim...

Se fosse assim, agindo no hoje como se me fosse a última chance, a última esperança: eu não deixaria para amanhã desavenças que tenho hoje. As resolveria de pronto! Eu não deixaria para depois os abraços que eu queria ter dado ontem e ainda não dei. Eu abraçaria hoje, sem medos ou pudores! Eu não deixaria para depois as ações de bem que sonhei fazer e não fiz ainda. Eu faria todo o bem que eu pudesse fazer já agora, sem pensar em medos ou consequências. Apenas faria o bem e pronto! 

Se fosse assim, agindo daquela maneira, eu não deixaria para depois sobre comunicar ao mundo que sou grato por tudo de bom e ruim que me deu. Eu acordaria e estaria grato, pronto! Dormiria agradecendo também. Afinal, quem sabe fosse meu último adormecer? 

Se fosse assim, agindo daquela maneira, eu não ficaria indo à missas, cultos, templos ou encontros religiosos quaisquer apenas para anotar presença enquanto práticas periódicas de fé socialmente aceita. Não! Eu iria somente exercer atividades assim caso achasse nisso algo de promissor, algo que estivesse a me tornar alguma pessoa e espírito melhores. Afinal, Deus existe para servir e estar presente na fé que é ação efetiva, não em fé que se dá aos broches que ostentamos no peito ou em fé que se exerce apenas nas presenças que marcamos como evento social que Deus tem se tornado no nosso mundo. Eu agiria diferente nisso também!

Se fosse assim, agindo daquele jeito, eu trabalharia com todo o amor que eu tivesse. Não aguardaria do outro as ações que eu mesmo posso realizar pelo bem comum! Faria muito mais o que é preciso fazer do que faço. Pararia de ficar fazendo só ''o que dá''. Agindo assim, eu estaria sendo um melhor profissional hoje. Afinal, amanhã minhas funções podem não mais estar sendo realizadas... Sabe-se lá se eu estarei vivo?

Agindo no hoje como se me fosse a última chance, eu não deixaria para amanhã olhar nos olhos de quem amo e dizer: ''eu te amo!''. Amor é coisa grande e rara. Poucos merecem receber o título de amor. Ah, sim, já houve muitos seres que amamos e hoje temos raiva de ter dado amor. Sim? Não! Ora, mil vezes não! Não se zangue! Amor é coisa que se dá e pronto. Não se espera o retorno! Se amamos e esperamos amor, isso não é amar. Amor é doado e pronto. Receber em troca fica a cargo do amor do outro e nada tem a ver com nossa capacidade de amar. Então, agindo assim, eu amaria mais e de forma mais clara, ampla, irrestrita. Afinal, talvez eu não mais tenha amanhã os amores que tenho hoje - pai, mãe, mulher amada, amigos e familiares queridos, animais amados de estimação, as flores do jardim... Eu os amaria a todos hoje!

Então, tentarei agir assim. Hoje será meu último dia? Esse será meu último ano? Não sei! Nem sei se essas podem ser minhas últimas palavras, mas, se forem, que elas tenham sido sinceras, dotadas do melhor que eu tenha a dar... De forma sincera, plena e pura, dar tudo quanto eu tenha para compartilhar. E que eu exija a cada dia mais coisas melhores de mim para serem doadas, compartilhadas. No mais, não tendo nada a compartilhar e nada de bom em mim ser doado: para que um ano novo, ou um dia novo, ou uma vida que siga adiante?

No mais, mesmo não sendo música de Caetano, usemos delas e das tantas outras coisas lindas que temos da nossa cultura nacional, por exemplo, para compartilhar coisas belas. Assim, estaremos ajudando mais (e de forma mais produtiva) nosso hoje e nosso amanhã - caso ele haja! Vou terminando de Caetano então! ''É de manhã (...) vou pela estrada, e cada estrela é uma flor. Mas a flor amada é mais que a madrugada... E foi por ela que o galo cocorocô!".

Resta então dar bom dia aos novos dias que nos nascem e bom dia ao novo ano que quase chega! Bom dia flor, amada, estrela madrugada... É de manhã! É de madrugada! Viva!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 5 de dezembro de 2015

Amigos

Ah, sim. Claro! Foi há muito tempo atrás. Lembro!
Eram muitos amigos que sentiam-se unidos, pois.
Foram-se anos passados de risadas,tantas,
Que causavam cansaço nas mandíbulas.
Ah, amizade pura que há. Quem encontra?
Não sei. Não encontrei, mas tive notícias.
Muitos por aí dizem-se cercados de amigos. Vê?
Vejo por ora um mundo inteiro reivindicando essa graça.
"Tenho amigos!", "são todos meus!". Ora, que lindo seria
Um mundo repleto de amizades puras.
Ah, como eram bons os tempos de infância.
Bastava trocar meia dúzia de figurinhas do álbum
E nos chamavam já de amigo no recreio!
Ah, como era bom o tempo da infância derradeira...
Tempo que passamos sem nada ter a oferecer.
Sem eira, nem beira. Só havia a presença e o tempo ofertados.
Ah, os amigos de outrora. Quem dera os tivesse agora.
Em tempos difíceis da vida, somos sozinhos, sabe?
Se não sabes, das duas uma: ou não és adulto ainda
Ou não passaste por problemas sérios.
Quem estiver do teu lado na tragédia, colega,
Chame esse alguém de amigo!
Abrace-o. Chame-o para sua casa!
Faça-lhe um café e diga: obrigado!
Para os demais, deixe que existam onde estejam,
De nada valem aqueles que não te somam na dor!
Mais ainda: valem nada aqueles que te somam dores outras
Enquanto sofres, sozinho, suas próprias dores - já tantas!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Horas felizes


Ah, a quitanda de minha vida de onde eu havia comprado meus frutos de sonhos...
Como eram doces os tempos de colher e comprar sonhos, esperanças.
Hoje, tão cético: quanto de sonhar e de esperar posso ter?
Quem fui eu que de nada me sirvo?
Fechei as portas que havia e tranquei-me em meu pessimismo...
Ora, pois então que eu as abra de pronto, correto?
Diriam tantos sem saber das coisas da vida...
Sim, é duro adoecer da alma, do pensamento...
Quão doente posso estar que de mim mesmo não me curo?
Qual doença enfim jaz em mim a colocar fim ao eu que fui, esperançoso?
Ah, vida que há: traga para mim a sombra de um sonho 
E deixe-me, deitado na relva da esperança, passar horas felizes.
É o que peço - pelo menos por ora. 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A noite em muito se me parece


Quero sumir, posso? Ora, é estranho mesmo! Nunca imaginei que deixaria para outros os meus sonhos, mas é a realidade que tenho por fado hoje. Desisti de mim, a bem dizer. Cansei de buscar sonhos... Não sou um bom sonhador, quem sabe... Ou melhor: não sou um bom "realizador" de sonhos. Nem mesmo o sonho de ficar bem eu alcanço, quiçá haveria outra alternativa para os demais sonhos cotidianos...? Sabedor disso tudo, por vezes, parado olhando a ausência de movimento nas ruas, em plena noite da cidade, fico perdido como os semáforos que ascendem e apagam para carro nenhum. Sim, sem sentido ou objetivo! Refleti sobre isso certa noite em que caminhei pensando...

Não é fácil caminhar doente. Sim, tenho andado doente há anos. Doente das emoções, sabe? Não houve remédios que me curassem desde o início de tudo! Por vezes, há um lapso de momento bom em mim. Deixo ele existir, mas sei, desde o início dele: vai passar! Morre no máximo um ou dois dias após aquele "eu feliz" que por instantes havia. 

A noite que há - escura, silenciosa e sem testemunhas - é algo semelhante a mim! Sou a cada dia mais obscuro! Enegrecidos se mostram meus pensamentos e enevoado meu futuro. O silêncio tornou-se padrão em mim. Não tenho mais atenção aos momentos de coletividade e de socializar... Sou a cada dia mais ensimesmado! E, em sendo assim: não há testemunhas sobre o que sinto, sofro ou penso! Tudo é um enorme silêncio em diálogo mental em que "eu" e "mim" entramos em debate e tiramos conclusões pessimistas. Logo, a noite em muito se me parece! A feliz conclusão que chego é: sendo eu parecido com a noite, uma certeza há: assim como ela acaba, eu também hei de acabar - cedo ou tarde!

Talvez chegue então o dia em que passe essa noite. A natureza não é assim, cíclica? Sim! Eu sou parte da natureza, um animal qualquer. Faço falta? Acho que não! Se eu morresse hoje, que mal faria ao mundo? Quem notaria? No máximo meia dúzia de pessoas que passaram por mim sem ver doença alguma ou notar algo de errado... 

Entristecido e pessimista, concluo: das pessoas que passam e me veem diuturnamente: quem delas me enxerga? Será tão difícil assim estender a mão ao que diante de si aparenta sofrer? Será que mudança de hábitos, poucos sorrisos, cotidiano embotado não dizem algo? Devo estar me fazendo de coitado, decerto... Creio, entretanto, que: se dizem algo essas mudanças de comportamento, pouco sonoro é aquilo que se faz dito, ou seu clamor. Pois quem percebe? Ninguém! Ninguém... Viver é desfrutar da solidão acompanhado de várias pessoas.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier