Era uma tarde qualquer num hospital comum. Como sempre, filas cheias de pacientes inquietos por tantas mazelas, quer fossem orgânicas ou psicológicas. Todos ali tinham sua devida pressa! Cada um deles, entretanto, exigia uma parcela específica de atenção da equipe daquele hospital. Porém, ao meio da tarde, mal esperavam por aquilo, todos comoveram-se com algo. Uma criança, tão pequena e comum aos olhos de todos, mas aos olhos dos pais que a traziam representava o ''tudo'' que valia em seu mundo. A criança em questão, já tão sofrida devido seu tratamento contra o infeliz câncer que a tirava daqueles pais, estava ali, diante de todos, já sem respirar. Sim, segundo os pais ela não respirava já havia alguns minutos quando, ao perceberem o insucesso de seus cuidados iniciais, procuraram a carona mais ágil e ali puderam enfim chegar. Chegariam em tempo? Não saberiam responder, mas correram o quanto puderam atrás da vida que perdia-se à frente deles...
O médico, de pronto, acompanhado de sua fiel assistente de enfermagem, moveu-se para acudir a cena abandonando (algo insatisfeitos) os pais de outra criança que, naquele mesmo instante, ainda estava sendo atendida devido seu quadro de amigdalite que, aparentemente, era a maior preocupação dos seus pais. O médico os abandonou devido toda a gravidade e urgência requeridas pela situação ao lado. Mas para os pais que ali ficaram ''abandonados'' no pequeno consultório, não fora tão simples perceber e entender aquilo. Aquele abandono sem o fechamento da consulta? Sim, era um atraso no encerramento daquele atendimento! Alguém deveria ser responsabilizado, pensou o pai, mas calou-se ao ver-se já distante do médico!
Médico e enfermeiras, todos os da equipe, na tentativa de socorrer de alguma forma ajudando naquele cenário desolador, moveram-se cada um definindo-se por suas competências, assumindo respectivas funções na tentativa do socorro. Ao primeiro contato, a criança não respirava, era fato! Sim, lá estava estampado na parede o protocolo a ser seguido para os casos como o que viam ali, colocando mais aquele paciente, aquela criança, como um receptor das manobras devidas, na conduta do protocolo referido adequado ao caso... Todos o sabiam de cor! Procederam a todos os cuidados, assim sendo! Sudoréticos, trêmulos, lá estavam todos! Por mais que já tivessem passado por situação semelhante diversas vezes, lá estavam eles ansiosos e temerosos por mais outra vez... Os ruídos humanos advindos dos afazeres do protocolo estabelecido ali não calavam o silêncio emocional da sala de urgências.
A criança não reagia! Todo um estresse firmava-se num cenário inconsolável já aparentemente definido por Deus. Os pais? Desesperados! Outros tantos em meio à cena brotavam pelos corredores tentando os confortar aos seus modos. O médico, apenas de soslaio por estar focado na cena inicial, olhava-os desesperado por não os poder socorrer naquele momento, nem os confortar... A cena era triste! Ele já sabia seu desfecho, era fato! O que esperar?
A criança não voltou aos braços daqueles pais! Como seguir? Como dizê-lo a eles, tal fato, tamanha dor? Para o sistema, ali havia apenas mais uma ficha, um número sequencial em meio a tantos, um prontuário qualquer que necessitou de um protocolo específico com sucesso total, parcial ou inexistente. Para aqueles pais, todavia, ali estava entregue aos braços de Deus o que lhes era tudo, mas lhes havia sido retirado. Para aquela enfermeira, já tão emocionada e em prantos naquele instante, ali morria uma linda criança com todo um futuro pela frente! Para aquele médico, por sua vez, ali estava "o tudo" daqueles pais, um querido paciente que por algum motivo de Deus fora-lhe retirado sem o sucesso das manobras por ele realizadas e também ali estava algo de um filho seu que perdeu-se!
Em meio às lágrimas dos pais, ele os abraçou afastando-se da maca, da criança! Explicou dos procedimentos que ali ocorreram, mesmo sabendo que para eles (e até mesmo para ele!) tudo era parte de algo inexplicável. Presenciar a morte? Apesar dos esforços por evitar a cena derradeira e temida que fez-se por concreta ao final de tudo, era humanamente muito triste, um tanto quanto revoltante! E daquilo, ao final de tudo, viu-se: foi-se embora outra alma pura do mundo! Sim, era ali o retrato de uma cena que pintava a morte e todo seu contexto de dor. Sim, o contexto inóspito, fato incontestável, revoltante e imutável do morrer, fato esse ali vislumbrado e definido na realidade que havia por sobre uma maca fria.
Após aquela despedida, entregue devidamente o nefasto atestado do óbito daquela criança às mãos dos pais, apesar dos olhos ainda estáticos deles, o médico enfim voltou-se ao que havia parado lembrando-se dos pais da outra criança com amigdalite que o aguardavam insatisfeitos. Para eles era demora eterna tudo aquilo enquanto aguardavam naquele consultório que ladeava a sala de emergência. Apesar disso, antes de adentrar naquele consultório novamente, sentiu ser necessário passar por algum outro local, mais afastado. O banheiro, sim, o banheiro! Precisou desviar-se por instantes dos olhos atentos daqueles pais sentados ao lado, no consultório, que lhes espreitavam os passos, ansiosos por uma posição para seu caso e, enfim, poderem ir para casa.
Esquecendo-se um pouco de tudo, de suas responsabilidades já em trânsito novamente apesar do que acabara de ocorrer, o médico refez-se em meio ao silêncio daquele banheiro! Entrou, respirou... Buscou na alma a calma necessária almejando a paz que queria ter - e precisava ter!. De sopetão, despretensiosamente junto ao silêncio que cabia aquele recinto, a lágrima pingou no jaleco que até então permanecia incólume, embora recheado de dores. A dor ali contida passou a ser seu pior parasita, consumindo todo resquício de paz que poderia haver, deixando eternizada na memória e no sentimento aquela despedida inexplicável aos olhos da experiência humana comum e à perplexidade daquele profissional que desde aquele instante nunca mais seria o mesmo, embora já tenha sofrido assim tantas outras vezes.
Feito isso, secada a lágrima, alguns instantes passaram-se. Retomou silencioso à sala do consultório. Reviu o caso, elaborou em definitivo seu diagnóstico e prescreveu. O carimbo fora apertado quase que sem força para corar em tinta o papel do receituário. Deu as devidas orientações. Trocou mais algumas palavras com os pais e esclareceu suas dúvidas. Saíram eles dali com atestados e receita em mãos, acompanhados de seu filho já pedindo para chegar em casa logo. Os pais, agora mais felizes, desde aquele instante apenas teriam de aguardar o sucesso prometido pelas medicações prescritas segundo informes daquele médico que, aparentemente, eles nem gostaram tanto... O médico? Como de habitual, secadas as lágrimas do corpo, seguiu obviamente com lágrimas ainda na alma. Porém, quem se importava? Lá estava ele novamente com caneta em punho e estetoscópio posicionado para todos os demais atendimentos daquele e dos seus próximos dias.
Chegando em casa, soltando à porta todo o peso do trabalho com um suspiro invisível aos olhos comuns, pensou consigo enquanto rumava à cozinha para beber um copo de água: vá em paz criança que partiu! Pensou novamente as últimas horas, seguiu para se arrumar para dormir, afinal, o dia seguinte já estava chegando com suas devidas obrigações. Naquela mesma noite, tantos outros desejaram suas respectivas bençãos ao espírito da criança que naquela tarde havia deixado o mundo...
Ao raiar do dia seguinte, lá estavam todos novamente na lida. As filas novamente cheias assim como as cabeças e as memórias com seus devidos sentimentos acumulados. Mazelas e dores ainda vívidas? Sim, mas a quem isso importava? As roupas brancas (tal qual papéis em branco) guardavam em si uma imensidão de sentimentos e pensamentos à espera do momento oportuno (nunca alcançado) de revelarem-se. Porém, aos olhos despretensiosos de todos, estavam meramente ''brancas'', vazias. Afinal, esperam-se do médico condutas, acertos, obrigações, não sentimentos! Correto? Era o que ele sabia - e temia!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.