quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Desdita

''Cumprida a comprida vida'' - esse foi o lema da morte daquele homem! Transeunte qualquer que, dele, mal sabiam os rastros - ou seja: de onde veio, para onde iria. Era ele um homem só e, por esse disparate, era tido como excêntrico. O caminho mais fácil para definir algo que não entendemos é culpar ou então definir como excentricidade do ser e da coisa em si. Que mal havia naquele que não conseguia na socialmente aceita ânsia pelo par encontrar o todo, não tendo encontrado na mulher que sonhou a metade que lhe faltava? Faltou sempre a metade de si mesmo, aquela que lhe pertencia para ser completo - ele viu um tanto quanto desditoso tal fato, já tão em atraso.

Completou seus muitos anos de vida. Para ele mal importavam se eram vinte, ou trinta, ou oitenta anos. Sem sentido, qualquer par de anos torna-se eternidade, torna-se uma vida comprida de se viver. Sim! Assim era pra ele. Viveu dia após dia na procura daquilo que sentia falta. Tentou em meio à multidão palpar no chão de estrelas caídas ver saltar aos olhos o bem que lhe pertencia, lhe faltava. Não encontrou! A falta que havia era de dentro para fora, não de algo de fora para dentro. Explico logo, amigo, relembrando Fernando Pessoa: ''para viver a dois, antes é necessário ser um''. Entende? Faltou-lhe a metade de si a completar-se com a mulher que amou, amaria, sabe-se lá! Sabe? Digo: é difícil sabê-lo, entendê-lo. Até mesmo vê-lo era difícil, tanto que, isso era sabido, pouco ele frequentava de regiões em frente a espelhos. Mal sabia ele sobre sua face já algo consumida pelos anos, independente de quantos. Muito se envelhece, mesmo que em poucos anos, quando o tempo mede-se em desgosto que, gota a gota, seca o passar dos dias da vida que há de se viver. Sabe? Espero que sim.

Tinham dó dele, claro. É notório nosso saber sobre o amor que há nas calçadas, nas ruas, nas noites e dias afora da realidade -  a bem dizer, a felicidade que literalmente salta aos olhos. Os olhos alheios olham-nos mais, e bem mais nos incomodam, que nosso próprio olhar. Obscurecendo a realidade de dentro das paredes dos lares, a cada dia mais consumidas em caos velado por falta de amor, esfacelados, vê-se que há sorrisos demais nas fotos, nas praças públicas, no convívio social. Mas o que pensamos ou sabemos disso? Desconsideramos sim as lágrimas que adentram as casas, e poucos sabem, ninguém além da própria pessoa solitária que chora, quem as seca. Muitos casais solitários, isso é bem verdade, há por aí em clamores de amor eterno! Para tantos, decerto, falta a metade pessoal que junta-se à outra pessoa esperada. Mais esperamos encontrar em alguém a completude do ser que completar em nós mesmos as sequelas de ausências que carregamos. A saber, há tantos casais de amor eterno que não duram semanas, meses, par de anos... Amores eternos duram até as primeiras tempestades, entendo. Há entretanto os que entendem essa verdade e consomem-se desde já ou os que enganam-se apesar disso. Pessimismo meu? Sim! Há os tantos casais felizes e seus dias de injúrias, claro - mas estão a cada vez mais escassos, raros, desconhecidos, quiçá.

Em meio ao mundo atual, das redes sociais e dos infindos belos sorrisos despretensiosos quanto a expor a realidade da(s) alma(s) fotografada(as), há uma cruel realidade que consome tal qual uma atrocidade humana qualquer as esperanças de tantos: se há mesmo esse excesso de sucesso na arte do amor pelo mundo, qual o motivo de tudo quanto vemos em uma crua realidade em tantos exemplos da falta de amor? E essa carência afetiva exposta nas manias infindas de postar fotos infinitas dizendo: ''vejam, eu existo e estou feliz!''? Tantas pessoas solitárias que, mesmo casadas, noivas, em relacionamentos quaisquer, transfiguram-se em "felicidades" direcionadas aos olhos alheios, mas não conseguem, de cabeça no travesseiro, agradecer a deus ou a quem queiram pelo par encontrado que dorme logo ao lado. Querem apenas dividir com todos nas redes sociais que não estão sozinhos(as). Vejo isso. Devo estar errado. Mas, sim, há muito amor aos olhos alheios, mais até que amor ao próximo, ao par, à pessoa do lado. Será isso? Estou errado! Deus, não me ouça. Ouça os que dizem sobre otimismo e crenças de amor eterno. Acredite nas redes sociais, Senhor, caso tenha criado Seu perfil. Desconsidere o mundo real... É mais fácil agir assim. A solidão para dentro dos lares e círculos sociais verdadeiros já basta.

Enquanto vivermos, cumpramos também as nossas compridas vidas, cumpridas a sós ou acompanhados, mas felizes - quer seja felicidade real ou aparente apenas aos olhos alheios, atentos! Solidão não gera ''likes'' nem compartilhamentos nas redes sociais. Melhor mesmo é sorrir apesar de tudo! Tenho, a pensar nisso, pena daquele homem que morreu sem encontrar nem em si mesmo a parte que faltava. Teria talvez, com sorte, caso atentasse para tamanhas as frivolidades do mundo em tempo, achado a mulher sonhada, sua metade que faltava - durasse ou não aquele amor! Não a encontrando de fato, poderia pelo menos encontrar nas redes sociais seu oásis de felicidade e expôr uma imagem sua diferente da que habitualmente expunha sem pensar nas consequências aos olhos dos demais- olhos esses que o tingiam com tons desdenhosos de solidão perceptível. Talvez ele nem se importasse, é fato... Pobre homem, deve estar agora a arrepender-se deveras! Tomara que não, pobre coitado... Mas, paro e penso: ah, Deus, cá estou eu como ele, enfarado e solitário, já velho e desditoso...

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