terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O lado negro da forca

Fiquei habituado a pensar. Sou chato! Insisto comigo mesmo nesse ideal, embora tanto nos ensinem a não pensar muito hoje. Digo isso sobre as redes de mídia no geral, também sobre os governos (mantidos em maior ou menos relevância pela ação da mídia). Digo isso pelos cenários que vejo ao olhar para qualquer lado hoje. Somos educados a não pensar demais. De preferência, nem mesmo pensar, é lícito dizer. Afinal, pensar gera conclusão sobre um tema, ou vários, e de conclusões surgem novidades, por vezes, ideias e ideais novos. Ninguém que tem poder nas mãos quer coisas novas, novidades quais sejam e em qualquer temática. Não pensar é a moda da mídia.

Vivemos em um mundo que nos ensina a querer sempre mais e mais coisas. Sim, computadores revolucionaram. Mas não querem apenas computadores puro e simplesmente: todos querem a cada parcela de meses trocar, trocar, trocar por novos e mais novos produtos tecnológicos. Em tantos exemplos, nem mesmo a pessoa precisa daquela novidade, mas sente que precisa daquilo para ser feliz. Sente que sem aquilo não estará inserida na realidade do mundo. Sente-se à deriva, sabe-se lá. O advento das coisas sendo produzidas em tão grandes escalas e com tantas novidades por minuto fez o homem não saber mais o que quer. Ele quer tudo quanto haja, não valoriza o que já tem, não quer saber de poupar, guardar as coisas que lhe são úteis. Quer trocar por novos itens que por inúmeras vezes nem sequer os irá usar ou saber pra que comprou - mas ele precisa comprar.

Esse lado obscuro do mundo capitalista ninguém vê. Criaram um mundo em que a todo tempo e a toda hora coisas devem estar sendo vendidas, produzidas para no dia seguinte estarem à venda. Pessoas no mundo todo estão ansiosas pelas novidades assim como a criança espera com fome a mamadeira próxima. Sim, estamos famintos por novidades assim como se houvesse um vazio em nós a ser preenchido, porém eis que logo ele esvazia de novo e precisamos comprar mais... O que sustenta isso? Quem enriquece com isso? Nós é que não somos! Somos meros compradores de elite ou comuns, mas todos vivem de comprar, comprar e querer sempre mais além do que o vizinho já possui, correto? Estamos às avessas.

Já disseram que rico é aquele que precisa de pouco. Ou seja: seria rico aquele que chamamos de pobre, mas que olha para seu entorno e não sente falta de nada. Pode haver isso? Pode! Mas nossa cabeça embriagada com necessidade de entupir prateleiras e armários com novos utensílios da modernidade não consegue ver a doença que lhe consome as entranhas. Somos uma sociedade doente que quer sempre mais, clama sempre por mais e mais coisas, quer tudo ao tempo e à hora que deseja. Sim, logo ali. Geração ao estilo ''fast-food''. Consumir produtos como se houvesse uma fome deles a preencher o vazio que mencionei acima. Quem quer olhar para si e saber-se vazio? Ninguém! Mais fácil e comprar e vencer o vizinho na busca por mais e mais ''posses''. Correto?

Enquanto nos entupimos de produtos para manter o status quo de promessas sadias do capitalismo que somos, tantos sofrem pelo mundo explorados em empregos (ou como dizem hoje: sub-empregos) sucateadores da condição humana. Sim! Tantos que, aos moldes de nossa cultura ocidental, poderíamos dizer estarem sendo escravizados caso trabalhássemos como eles e sob aquelas condições. No mesmo tempo e em mesma intensidade que eles trabalham, estaríamos revoltados - mas não nos revolta a condição que criamos para manter o mundo capitalista aos moldes de tamanho consumismo.

Somos, digamos assim, atentos? Não! Não queremos saber do sofrimento alheio. O que nos faz sofrer é, ver nas propagandas já anunciados novos aparelhos ultra-modernos e qualquer outro novo artefato de importância (duvidosa, tantos deles!) e ainda não possuí-los! Correto? Criamos uma forca na qual nós mesmos nos enforcamos sedentos por consumir. Forca essa que nos mantém sempre na necessidade absurda de gastar e vencer a competição social de quem possui mais. Nisso, vamos nos matando num processo de consumir que na verdade nos consome. Imaginamos estar subindo alto nas escalas humanas da vaidade, porém, chega a hora que caímos e nos vemos enforcados com o padrão desenfreado que criamos. Estamos então, digo e repito: sendo enforcados aos poucos!

Apesar disso, somos cegos demais para ver e voluntariamente ignorantes demais para entender o lado negro dessa forca! Sim, há o lado negro da forca e estamos nos matando - e matando pessoas - com isso! Habitamos a ditadura do capital! A ditadura do comprar sempre mais e não medir esforços para ter maior poder de compra possível. Coitados de nós! Coitado do futuro para além de nós.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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